ANN064

Os «dias seguintes» assinalados por João

O artigo examina a cronologia dos acontecimentos ligados ao batismo de Jesus no Evangelho de João, distinta da dos Evangelhos sinóticos. Procura harmonizar esses relatos propondo uma análise detalhada para compreender melhor a visão de João. Fixa-se como data hipotética do batismo o dia 4 de outubro do ano 29.

125 min batismo cronologia Jesus João evangelhos 176 versículos 17 livros

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Introdução

Este estudo constitui um dos elementos da nossa pesquisa dedicada ao estabelecimento de uma cronologia da vida do Messias Jesus a partir da profecia das setenta semanas de Daniel (Daniel 9.24-27). Deve ser compreendido em ligação com os outros estudos desta série, cada um trazendo dados complementares históricos, calendários e bíblicos. O conjunto desses trabalhos forma uma análise coerente que visa reconstituir, com a maior precisão possível, o encadeamento dos acontecimentos relatados nos Evangelhos.

La liste complète des neuf études, accompagnée des différents liens, est proposée ci-dessous. Cette série est également disponible dans la catégorie « Chronologie », accessible depuis la page d’accueil.

O Evangelho segundo João apresenta uma sucessão de acontecimentos ligados ao início do ministério público de Jesus, articulada em torno do testemunho de João Batista e do chamado dos primeiros discípulos. Diferentemente dos Evangelhos sinóticos, o quarto Evangelho não descreve diretamente o batismo de Jesus nem o período de quarenta dias de tentação no deserto. Seu relato abre-se, no entanto, com uma série de indicações temporais precisas, especialmente por meio da expressão recorrente «no dia seguinte» (João 1.29 ; João 1.35 ; João 1.43), que estrutura vários dias consecutivos antes das (João 2.1).

O significado exato desses marcadores cronológicos suscitou numerosas discussões entre os exegetas. Alguns consideram que a ordem dos acontecimentos relatados por João difere sensivelmente da dos sinóticos, em particular quanto ao lugar da tentação depois do batismo (Mateus 4.1-11 ; Marcos 1.12-13 ; Lucas 4.1-13). Essa aparente divergência levanta uma questão fundamental: como harmonizar os dados joaninos com os de Mateus, Marcos e Lucas a fim de obter uma reconstrução coerente do início do ministério de Jesus?

Neste estudo, procederemos a uma análise detalhada do conjunto dos textos envolvidos, examinando atentamente as indicações temporais, geográficas e narrativas fornecidas pelos diferentes autores. Proporemos em seguida uma reconstituição cronológica que permita integrar as informações de João às dos Evangelhos sinóticos.

A cronologia proposta permanece hipotética e se baseia em nossas análises e no uso de conversores de calendário contemporâneos. Nesse quadro, situamos o batismo de Jesus na quinta-feira, 4 de outubro do ano 29, e proporemos uma harmonização que inclua tanto os dados cronológicos de João quanto o período de tentação no deserto.

I. Os quatro marcos temporais de João

João introduz o início do ministério público do Messias Jesus por meio de várias indicações cronológicas sucessivas.

João 1.29 (Bíblia Livre)

O dia seguinte viu João a Jesus vir a ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

João 1.35-36 (Bíblia Livre)

O seguinte dia estava outra vez ali João, e dois de seus discípulos.

E vendo por ali andar a Jesus, disse: Eis o Cordeiro de Deus.

João 1.43 (Bíblia Livre)

O dia seguinte Jesus quis ir à Galileia, achou Filipe, e disse-lhe: Segue-me.

João 2.1 (Bíblia Livre)

E no terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia; e a mãe de Jesus estava ali.Noteduas ou três metretas cerca de 100 litros (1 metreta era aproximadamente 40 litros

Essas passagens fornecem, portanto, quatro indicações temporais que estruturam o relato joanino do início do ministério de Jesus. Embora essa sucessão de acontecimentos provavelmente parecesse clara aos primeiros leitores de João, hoje ela levanta várias dificuldades de interpretação, sobretudo quando se procura compará-la com os relatos dos Evangelhos sinóticos.

Para compreender melhor o pensamento do autor, convém examinar atentamente a ordem dos acontecimentos que ele relata, bem como a função das expressões temporais que emprega. Ao redigir seu Evangelho, João conhecia verossimilmente as tradições já relatadas por Mateus, Marcos e provavelmente Lucas. Assim, as diferenças observadas não devem ser interpretadas como contradições, mas antes como o resultado de uma seleção e de uma organização particulares dos acontecimentos segundo o objetivo teológico e narrativo próprio de João.

É igualmente importante ressaltar que João não descreve nem o batismo do Messias Jesus nem o período da tentação no deserto. Essa ausência abre a possibilidade de que os acontecimentos relatados em João 1.19-51 e João 2.1 — em particular a visita da delegação enviada a João Batista e o chamado dos primeiros discípulos — se situem depois do período dos quarenta dias de tentação mencionado pelos Evangelhos sinóticos (Mateus 4.1-11 ; Marcos 1.12-13 ; Lucas 4.1-13).

II. Cronologia do período do batismo ao chamado dos primeiros discípulos

1- O batismo e suas manifestações

Os Evangelhos sinóticos fornecem várias indicações que permitem reconstituir a cronologia geral dos acontecimentos compreendidos entre o batismo de Jesus, o período de tentação no deserto e o chamado dos primeiros discípulos. O Evangelho segundo João completa em seguida essa sequência com uma série de marcos temporais centrados no testemunho de João Batista e nos primeiros encontros entre Jesus e seus discípulos.

Lucas 3.21-22 indica que Jesus se apresentou para o batismo num contexto em que muitas pessoas vinham receber o batismo de João. O texto deixa assim entrever uma cena pública, na presença de várias testemunhas. Mateus precisa que Jesus veio da Galileia para ser batizado por João (Mateus 3.13) e destaca a hesitação inicial de João Batista, consciente da superioridade espiritual daquele que recebia (Mateus 3.14). Marcos relata que esse batismo aconteceu no Jordão (Marcos 1.9), provavelmente em Betânia, do outro lado do Jordão, segundo as indicações de João 1.28.

Durante o batismo, ocorreu um acontecimento excepcional. Os três Evangelhos sinóticos relatam que uma voz celestial se fez ouvir depois que Jesus saiu da água (Mateus 3.17 ; Marcos 1.11 ; Lucas 3.22). As diferenças de formulação podem ser explicadas naturalmente como duas maneiras complementares de relatar a mesma proclamação divina. Mateus conserva uma formulação dirigida às testemunhas: «Este é o meu Filho amado, em quem me agrado» (Mateus 3.17), ao passo que Marcos e Lucas transmitem uma palavra dirigida diretamente a Jesus: «Tu és o meu Filho amado; em ti me agrado» (Marcos 1.11 ; Lucas 3.22). É possível que essas palavras tenham sido ouvidas por várias pessoas presentes no local.

2- A tentação no deserto

Imediatamente depois desse acontecimento, tem início o período de tentação no deserto. Marcos precisa que «logo» o Espírito impeliu Jesus para o deserto (Marcos 1.12), enquanto Mateus indica que ele foi conduzido até lá para ser tentado pelo diabo (Mateus 4.1). Lucas também relata esse período de quarenta dias (Lucas 4.1-2). Essas indicações levam a situar a tentação imediatamente depois do batismo.

Esse período de quarenta dias possui forte significado bíblico. Lembra os quarenta anos de Israel no deserto (Números 14.33-34), mas também os quarenta dias de Moisés no monte (Exodo 34.28) e os de Elias a caminho do Horebe (1 Reis 19.8). Onde Israel fracassou no deserto, o Messias permanece perfeitamente fiel à palavra de Deus. Todas as suas respostas ao tentador se apoiam na Escritura, principalmente no livro de Deuteronómio (Deuteronômio 8.3 ; Deuteronômio 6.16 ; Deuteronômio 6.13).

Depois de deixar a região do Jordão, Jesus se retira verossimilmente para uma região desértica da Judeia, propícia ao isolamento e à oração. Durante quarenta dias, jejua e sofre as tentações do diabo (Mateus 4.2 ; Marcos 1.13 ; Lucas 4.2). Os Evangelhos parecem indicar que as tentações atingem o auge no fim desse período de jejum, quando a fraqueza física se torna extrema. Ao término dessa provação, anjos vêm servi-lo (Mateus 4.11 ; Marcos 1.13). É provável que o próprio Jesus tenha relatado mais tarde esse episódio a seus discípulos, já que nenhuma outra testemunha humana poderia estar presente no deserto.

3- A volta e a visita da delegação

Depois desse período de retiro, Jesus volta à região onde João Batista exerce seu ministério. É nesse contexto que o Evangelho segundo João situa a chegada da delegação enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém (João 1.19-28). Segundo essa reconstituição cronológica, João Batista já havia, portanto, batizado Jesus quando essa delegação veio interrogá-lo. A declaração de João: «No meio de vós está alguém que não conheceis» (João 1.26) adquire então todo o seu sentido: o Messias já estava presente no meio do povo, embora ainda não fosse publicamente reconhecido.

4- A sequência dos encontros

No dia seguinte a esse encontro com a delegação, João vê Jesus aproximar-se e declara publicamente: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (João 1.29). Testemunha então ter visto o Espírito descer sobre ele por ocasião do batismo (João 1.32-34).

No dia seguinte de novo, João está com dois de seus discípulos quando aponta mais uma vez Jesus como «o Cordeiro de Deus» (João 1.35-36). Em seguida a esse testemunho, os dois discípulos começam a seguir Jesus (João 1.37). Um deles é expressamente identificado como André, irmão de Simão Pedro (João 1.40). O outro discípulo não é nomeado, mas vários exegetas consideram que poderia tratar-se do próprio apóstolo João, conforme o hábito que ele tem em seu Evangelho de não se designar diretamente.

André vai depois encontrar seu irmão Simão e lhe anuncia: «Achamos o Messias» (João 1.41). Simão é então levado a Jesus, que lhe dá o nome de Cefas, traduzido por Pedro (João 1.42).

No dia seguinte, Jesus decide ir à Galileia (João 1.43). Encontra Filipe e lhe dirige um chamado direto: «Segue-me» (João 1.43). Filipe, natural de como André e Pedro (João 1.44), junta-se imediatamente ao grupo dos discípulos.

Pouco depois, Filipe encontra Natanael e lhe anuncia ter achado aquele de quem Moisés e os profetas falaram: Jesus de Nazaré (João 1.45). Natanael manifesta de início reservas quanto a Nazaré (João 1.46), mas acaba aceitando encontrar Jesus. Quando Jesus revela um conhecimento sobrenatural a seu respeito, Natanael reconhece nele o Filho de Deus e o rei de Israel (João 1.47-49).

Essa sucessão de acontecimentos conduz finalmente às mencionadas em João 2.1, que marcam o início público dos sinais realizados por Jesus na Galileia.

III. Tableau récapitulatif des événements

OrdemAcontecimentoReferências
1Batismo do Messias Jesus no Jordão, provavelmente em Betânia, do outro lado do Jordão(Mateus 3.13-17) ; (Marcos 1.9-11) ; (Lucas 3.21-22) ; (João 1.28)
2Declaração celestial que identifica Jesus como o Filho amado(Mateus 3.17) ; (Marcos 1.11) ; (Lucas 3.22)
3Partida imediata para o deserto da Judeia(Mateus 4.1) ; (Marcos 1.12) ; (Lucas 4.1)
4Período de quarenta dias de jejum e de tentação(Mateus 4.2-10) ; (Marcos 1.13) ; (Lucas 4.2-13)
5Os anjos servem Jesus depois da tentação(Mateus 4.11) ; (Marcos 1.13)
6Volta de Jesus à região onde João batizavaHarmonização dos relatos sinóticos e joaninos
7Visita da delegação enviada de Jerusalém a João Batista(João 1.19-28)
8João anuncia que o Messias já está presente: «No meio de vós está alguém que não conheceis»(João 1.26)
9Primeiro «dia seguinte»: João aponta Jesus como «o Cordeiro de Deus»(João 1.29-34)
10Segundo «dia seguinte»: dois discípulos de João começam a seguir Jesus(João 1.35-39)
11André leva Simão a Jesus; Simão recebe o nome de Cefas (Pedro)(João 1.40-42)
12Terceiro «dia seguinte»: partida para a Galileia e chamado de Filipe(João 1.43-44)
13Encontro entre Jesus e Natanael(João 1.45-49)
14«Três dias depois»: as na Galileia(João 2.1-11)

IV. A data do batismo de Jesus

1- O quadro profético

A profecia das setenta semanas de Daniel (Daniel 9.24-27) permite, segundo o nosso estudo, situar com relativa precisão a última «semana» de anos mencionada pelo profeta. Esse período de sete anos parece dividir-se em duas partes iguais de três anos e meio:

  • A primeira parte corresponderia ao ministério de um profeta que prepara a vinda do Messias. Os Evangelhos identificam claramente esse personagem com João Batista (Isaías 40.3 ; Malaquias 3.1 ; Mateus 3.1-3).
  • A segunda parte diria respeito ao ministério público do Messias até a sua morte e ressurreição.

Segundo essa reconstrução, o início do ministério do Messias ocorreria no meio da septuagésima semana, isto é, por volta do mês de Tishri do ano judaico 3790. O batismo de Jesus constituiria assim o ponto de partida oficial de seu ministério público (Lucas 3.21-23).

2- As festas judaicas do mês de Tishri

Três grandes festas judaicas se sucedem precisamente durante esse período:

Festa Data hebraica Correspondência juliana
Rosh Hashaná (Ano-Novo civil) 3790 Por volta de 25 de setembro do ano 29
Yom Kippur (o Grande Perdão) 10 de Tishri de 3790 4 de outubro do ano 29
(festa dos Tabernáculos) 15 de Tishri de 3790 9 de outubro do ano 29

Surge, portanto, naturalmente a pergunta: qual festa convém melhor ao batismo de Jesus?

3- A hipótese do Yom Kippur

A festa de possui forte alcance simbólico. Faz parte, com Pessach e Shavuot, das três grandes festas de peregrinação do judaísmo (Exodo 23.14-17 ; Deuteronômio 16.16). Celebra em especial a presença de Deus no meio de seu povo durante a travessia do deserto (Levítico 23.42-43). Esse simbolismo combina particularmente bem com a encarnação do Messias (João 1.14).

No entanto, vários elementos nos levam antes a considerar a festa de Yom Kippur.

Lucas precisa, com efeito, que Jesus tinha «cerca de trinta anos» quando iniciou seu ministério (Lucas 3.23). Se o batismo tivesse ocorrido exatamente durante , isto é, alguns dias depois, Jesus provavelmente teria completado precisamente os seus trinta anos. Nesse caso, o emprego do termo «cerca de» por Lucas parece menos natural. Em contrapartida, um batismo situado na ocasião do Yom Kippur, alguns dias antes do seu trigésimo aniversário exato segundo a nossa cronologia, corresponderia melhor a essa prudente formulação de Lucas.

A escolha do Yom Kippur apresenta também forte coerência teológica. Essa festa do Grande Perdão estava centrada em:

  • a expiação dos pecados;
  • o sacrifício;
  • a purificação do povo;
  • e a intervenção do sumo sacerdote (Levítico 16.29-34).

Ora, o batismo de Jesus inaugura precisamente o ministério daquele que João designará em seguida como «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (João 1.29). Essa correspondência tipológica entre a festa da expiação e a missão redentora do Messias reforça a plausibilidade dessa datação.

Propomos, portanto, que o batismo de Jesus tenha ocorrido verossimilmente em 10 de Tishri de 3790, o que corresponde aproximadamente a 4 de outubro do ano 29.

4- A ausência dos discípulos durante o batismo

Essa hipótese poderia também explicar a aparente ausência dos primeiros discípulos no momento do batismo. Durante o Yom Kippur, as famílias judaicas observavam esse dia com grande solenidade. É possível, portanto, que vários discípulos de João Batista estivessem temporariamente ausentes para reunir-se a seus familiares.

O Evangelho segundo João parece confirmar indiretamente essa situação. Quando João aponta Jesus como «o Cordeiro de Deus» (João 1.35-37), seus discípulos parecem descobrir progressivamente a identidade do Messias. Se tivessem presenciado pessoalmente o batismo e a manifestação celestial relatada pelos sinóticos (Mateus 3.16-17 ; Marcos 1.10-11 ; Lucas 3.21-22), as explicações repetidas de João Batista seriam menos necessárias.

Segundo essa reconstituição cronológica, os discípulos teriam se juntado a João Batista nos dias seguintes, provavelmente depois de viajar da Galileia até a região onde ele exercia seu ministério. Cremos que se tratava de Betânia, do outro lado do Jordão, mencionada em João 1.28.

V. Visita das autoridades religiosas enviadas de Jerusalém

Não podemos datar com precisão a visita da delegação enviada de Jerusalém a João Batista (João 1.19-28). No entanto, vários elementos nos levam a situar esse acontecimento depois do batismo de Jesus e depois do período de tentação no deserto.

Os Evangelhos sinóticos indicam, com efeito, que imediatamente depois do batismo Jesus foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mateus 4.1 ; Marcos 1.12-13 ; Lucas 4.1-13). Esse período constitui uma etapa fundamental do início de seu ministério público. Jesus manifesta ali sua perfeita obediência a Deus e sua vitória sobre o mal. A cada uma das tentações, responde com as Escrituras, sublinhando assim a autoridade e o poder da Palavra de Deus diante dos ataques de Satanás.

Ao término dessa provação, Jesus volta à região onde João Batista exerce seu ministério. Segundo a nossa reconstituição cronológica, é nesse contexto que se dá a visita da delegação mencionada somente pelo apóstolo João (João 1.19-28). Diferentemente de Mateus 3.7-12, que evoca simplesmente a presença de e de que vêm a João, o relato joanino descreve um verdadeiro inquérito oficial conduzido por representantes religiosos enviados de Jerusalém.

É possível, portanto, que os e os mencionados por Mateus não correspondam necessariamente aos enviados oficiais descritos por João. Alguns podiam estar presentes por iniciativa própria, atraídos pela importância crescente do ministério de João Batista, ao passo que a delegação aludida no quarto Evangelho decorria antes de uma iniciativa institucional das autoridades religiosas de Jerusalém.

A entrevista relatada em João 1.19-28 está centrada principalmente na identidade e na missão de João Batista. Nenhum detalhe é dado a respeito do batismo de Jesus ou da tentação no deserto. Essa ausência se explica naturalmente se esses acontecimentos já tivessem ocorrido no momento desse encontro. A declaração de João: «No meio de vós está alguém que não conheceis» (João 1.26) adquire então todo o seu sentido, já que João conhecia a identidade do Messias em decorrência do batismo.

VI. O primeiro «dia seguinte»

João 1.29 (Bíblia Livre)

O dia seguinte viu João a Jesus vir a ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.

Esse marco cronológico segue diretamente o testemunho dado por João Batista diante da delegação enviada de Jerusalém (João 1.19-28). Naquela época, a reputação de João não parava de crescer em toda a Judeia. Sua atividade à beira do Jordão atraía grandes multidões, de modo que as autoridades religiosas decidiram enviar sacerdotes e levitas para investigar sua identidade e suas pretensões.

O objetivo deles era provavelmente determinar:

  • quem era realmente João Batista;
  • se reivindicava uma autoridade profética;
  • se representava uma ameaça religiosa ou política;
  • e sobretudo se poderia ser o Messias anunciado pelos profetas.

João respondeu sem ambiguidade: «Eu não sou o Cristo» (João 1.20). A entrevista se dá em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João batizava (João 1.28). Diferentemente do testemunho que presta em seguida a respeito de Jesus, João permanece aqui particularmente prudente. Diante dessas autoridades religiosas muitas vezes hostis, limita-se essencialmente a definir sua própria missão como a da «voz do que clama no deserto» (João 1.23 ; cf. Isaías 40.3).

A proclamação do Cordeiro de Deus

No dia seguinte a essa visita oficial, João avista Jesus, que provavelmente volta do período de tentação no deserto da Judeia. Declara então publicamente: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (João 1.29).

Desta vez, a linguagem de João se torna muito mais explícita. Ele já não se dirige a uma delegação oficial vinda de Jerusalém, mas às pessoas presentes à sua volta, provavelmente seus próprios discípulos e as multidões que o acompanhavam. João identifica agora abertamente Jesus como aquele sobre quem o Espírito desceu por ocasião do batismo (João 1.32-34) e afirma que ele é o Filho de Deus (João 1.34).

Essa declaração marca uma virada importante no relato joanino. O ministério de João Batista atinge seu objetivo: preparar a vinda do Messias e revelá-lo publicamente a Israel (João 1.31).

O alcance teológico do título «Cordeiro de Deus»

A expressão «Cordeiro de Deus» possui alcance teológico considerável. Evoca simultaneamente várias realidades do Antigo Testamento:

  • O cordeiro pascal (Exodo 12.1-13): na saída do Egito, o sangue do cordeiro protegeu da morte os primogênitos de Israel. Paulo identificará expressamente Cristo como «a nossa Páscoa» (1 Coríntios 5.7).
  • Os sacrifícios pelo pecado: no sistema levítico, o cordeiro era frequentemente oferecido em sacrifício de expiação (Levítico 4.32-35).
  • O Servo sofredor de Isaías: «Foi maltratado e oprimido, e não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro» (Isaías 53.7). Esse texto anuncia profeticamente aquele que carregará os pecados de muitos.

João Batista apresenta assim Jesus como aquele que vem carregar e tirar o pecado do mundo. Essa proclamação ocorre imediatamente depois da vitória de Jesus sobre as tentações do deserto, sublinhando simbolicamente sua perfeita fidelidade a Deus antes do início público de seu ministério.

VII. O sentido da expressão «dia seguinte»

O termo grego empregado por João nessas diversas passagens corresponde à palavra epaurion (Strong 1887), geralmente traduzida por «no dia seguinte» ou «no dia posterior». Esse mesmo termo aparece várias vezes no relato joanino (João 1.29 ; João 1.35 ; João 1.43) e parece estruturar deliberadamente a progressão dos acontecimentos.

No primeiro caso (João 1.29), o contexto indica naturalmente que o «dia seguinte» sucede à visita da delegação enviada de Jerusalém (João 1.19-28). Nada no texto sugere que João tenha reunido artificialmente vários episódios distantes no tempo. Pelo contrário, o encadeamento narrativo parece fluido e coerente.

A notoriedade de João Batista explica provavelmente a intervenção tardia das autoridades religiosas. Seu ministério tinha um impacto considerável em toda a região. Até mesmo e vinham a ele para receber o batismo (Mateus 3.7-12), embora João denuncie a falta de verdadeiro arrependimento em vários deles. Essa influência crescente levou verossimilmente o a enviar uma delegação oficial para avaliar a situação.

Nessa perspectiva, a expressão «dia seguinte» deve provavelmente ser entendida em seu sentido habitual de «dia posterior», sem que seja necessário ver nela uma simples transição literária com o sentido de «depois disso». João parece querer apresentar uma sucessão precisa de acontecimentos ligados ao início do ministério público de Jesus.

VIII. O segundo «dia seguinte»: o encontro decisivo com o Cordeiro de Deus

João 1.35-36 (Bíblia Livre)

O seguinte dia estava outra vez ali João, e dois de seus discípulos.

E vendo por ali andar a Jesus, disse: Eis o Cordeiro de Deus.

1- O contexto desse dia

João 1.35-36 (Bíblia Livre) :
O seguinte dia estava outra vez ali João, e dois de seus discípulos.E vendo por ali andar a Jesus, disse: Eis o Cordeiro de Deus.

Este segundo «dia seguinte» sucede à primeira proclamação pública de Jesus como «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (João 1.29). Segundo a nossa reconstituição cronológica, esse acontecimento se situaria no domingo, 18 de novembro do ano 29, embora essa datação permaneça hipotética.

2- A articulação com os Evangelhos sinóticos

O Evangelho segundo João não menciona expressamente nem o batismo de Jesus nem sua tentação no deserto. Harmonizando seu relato com os dos sinóticos, parece coerente situar esse encontro depois do período dos quarenta dias de tentação (Mateus 4.1-11 ; Marcos 1.12-13 ; Lucas 4.1-13).

Segundo as nossas conclusões, o batismo teria ocorrido na quinta-feira, 4 de outubro do ano 29, seguido imediatamente da partida de Jesus para o deserto da Judeia, onde foi tentado pelo diabo. Em seu retorno, ele teria voltado à região onde João Batista exercia seu ministério, antes do início oficial do chamado dos discípulos.

Essa harmonização sugere que os futuros discípulos encontram Jesus dois dias depois de sua volta do deserto. Eles ainda estavam em Betânia, do outro lado do Jordão, e parece agora que provavelmente não estavam presentes no batismo de Jesus.

3- A identidade dos dois primeiros discípulos

Nesse dia, dois discípulos de João Batista começam a seguir Jesus (João 1.37). O texto identifica um deles como André, irmão de Simão Pedro (João 1.40). O outro permanece anônimo, mas uma antiga tradição o associa ao próprio apóstolo João, autor do quarto Evangelho. Essa discrição seria característica de sua maneira de designar-se ao longo de todo o seu relato como «o discípulo a quem Jesus amava» (João 13.23 ; João 19.26 ; João 21.7, João 21.20).

Esse encontro marca uma etapa decisiva: esses homens descobrem progressivamente que Jesus de Nazaré é o Messias anunciado pelos profetas. É pelas palavras de João Batista que tomam conhecimento dos acontecimentos notáveis ocorridos por ocasião do batismo — a descida do Espírito e a voz celestial que atestava a identidade do Filho de Deus (João 1.32-34).

4- A questão da hora

João precisa que esse encontro ocorreu «por volta da hora décima» (João 1.39). Duas interpretações são possíveis:

Sistema de contagem Hora correspondente
Judaico (o dia começa ao nascer do sol) Cerca de 16 horas
(o dia começa à meia-noite) Cerca de 10 horas da manhã

Como o apóstolo João parece utilizar em outras passagens o sistema de cômputo — notadamente quando situa o julgamento de Jesus «por volta da hora sexta» (João 19.14), isto é, cerca de 6 horas da manhã —, a segunda hipótese permanece a mais coerente. André e João teriam passado, portanto, a maior parte do dia com Jesus.

5- O local de residência de Jesus

O texto revela um detalhe significativo: Jesus dispunha de um lugar onde permanecer temporariamente. Quando os dois discípulos lhe perguntam «Rabi, onde moras?», ele lhes responde «Vinde e vede» (João 1.38-39). Essa precisão indica que ele não estava simplesmente de passagem por Betânia, mas que pretendia permanecer ali algum tempo.

Ao chegar, provavelmente na sexta-feira anterior, Jesus teria procurado um abrigo adequado — sem dúvida uma tenda ou uma cabana modesta, segundo os costumes comuns das concentrações nessa região do Jordão. Sua formação de carpinteiro (Marcos 6.3) lhe teria sido útil nesse contexto. É verossímil que cada pessoa presente contribuísse para os trabalhos necessários ao funcionamento dessa comunidade temporária, sendo a hospitalidade e a partilha valores fundamentais dessa reunião em torno de João Batista.

6- Conclusão

Este dia 18 de novembro do ano 29 marca o início de uma aventura que transformará o mundo. Dois discípulos de João Batista, atentos ao testemunho de seu mestre, ousam seguir aquele que ele aponta como o Cordeiro de Deus. Ao passar esse dia com Jesus, adquirem a convicção de que ele é de fato o Messias esperado — uma convicção que André se apressará a compartilhar com seu irmão Simão logo no dia seguinte (João 1.41-42).

IX. O encontro com Simão

João 1.40-42 (Bíblia Livre)

Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que ouvira aquilo de João, e o haviam seguido.

Este achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Já achamos ao Messias(que traduzido, é o Cristo).

E levou-o a Jesus. E Jesus, olhando para ele, disse: Tu és Simão, filho de Jonas; tu serás chamado Cefas. (que se traduz Pedro).

Segundo as nossas análises, no domingo, 18 de novembro do ano 29, André e João encontram Simão, irmão de André. Parece que esses três homens eram discípulos de João Batista e provavelmente haviam sido batizados por ele.

Simão é objeto de atenção particular, pois se tornará um discípulo influente dentro do grupo. João parece resumir aqui uma conversa mais longa e nos oferece apenas a conclusão. Jesus anuncia a Simão que ele se chamará de agora em diante Cefas.

O

VIII. O terceiro «dia seguinte»

João 1.43 (Bíblia Livre)

O dia seguinte Jesus quis ir à Galileia, achou Filipe, e disse-lhe: Segue-me.

Na segunda-feira, 19 de novembro, bem cedo, Jesus decide partir para a Galileia. Nenhuma precisão é dada pelos autores dos Evangelhos a respeito desse retorno à Galileia. Pensamos que ele volta a Nazaré, que fica perto de .

1- O chamado de Filipe

Ao partir, Jesus encontra Filipe e lhe dirige um chamado direto: «Segue-me» (João 1.43). João precisa que ele era natural de , como André e Pedro (João 1.44). Esses laços geográficos explicam provavelmente as relações já existentes entre vários dos primeiros discípulos.

A simplicidade do chamado ressalta também a autoridade particular exercida por Jesus desde o início do seu ministério. Nesse contexto, a fórmula «segue-me» pode ter duas interpretações. A primeira, segui-lo fisicamente no caminho para a Galileia, corresponde à realidade. Pensamos, contudo, que esse chamado reveste uma dimensão mais espiritual, convidando a seguir os ensinamentos de Jesus e a considerá-lo um novo Mestre.

2- A duração da viagem

O deslocamento para Nazaré se faz geralmente em cinco a seis dias. A distância entre Betânia, do outro lado do Jordão, e a Galileia exigia vários dias de caminhada pelo vale do Jordão ou pela Samaria.

3- O encontro com Natanael

«Filipe encontrou Natanael e lhe disse: "Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei e de quem também escreveram os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José."» (João 1.45)

Filipe encontra Natanael a sós e precisa: «achamos», porque já havia encontrado antes André, João e Simão Pedro. Essa declaração mostra que os primeiros discípulos já interpretam a vinda de Jesus à luz das Escrituras do Antigo Testamento (Deuteronômio 18.15 ; Isaías 9.5-6 ; Isaías 11.1-10).

4- O ceticismo inicial de Natanael

Natanael manifesta, todavia, certa reserva: «De Nazaré pode sair alguma coisa boa?» (João 1.46). Essa reação reflete provavelmente a baixa reputação de Nazaré naquela época. A aldeia era modesta e pouco mencionada nas fontes antigas. Filipe não procura desenvolver uma longa argumentação, mas responde simplesmente: «Vem e vê» (João 1.46).

O testemunho pessoal e o encontro direto com Jesus tornam-se assim o principal meio de convencer Natanael.

5- A revelação de Jesus

«Jesus viu Natanael aproximar-se dele e disse a seu respeito: "Eis aqui verdadeiramente um israelita em quem não há dolo." "De onde me conheces?", disse-lhe Natanael. Jesus lhe respondeu: "Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da , eu te vi." Natanael respondeu: "Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel."» (João 1.47-49)

Essa palavra parece revelar um conhecimento sobrenatural de Natanael e provoca imediatamente a sua confissão de fé. A possui na tradição judaica forte alcance simbólico e pode evocar:

  • a meditação das Escrituras;
  • a paz messiânica;
  • ou ainda a espera do reino (Miqueias 4.4 ; Zacarias 3.10).

A referência a «um israelita em quem não há dolo» contrasta com Jacó, cujo nome significa «aquele que suplanta» e que foi caracterizado pela astúcia em seus anos jovens (Gênesis 27.35-36). Natanael encarna assim o israelita autêntico, preparado para reconhecer o Messias.

6- A identidade de Natanael

Com exceção das diversas listas de apóstolos (Mateus 10.3 ; Marcos 3.18 ; Lucas 6.14), Natanael não é mencionado com esse nome nos Evangelhos sinóticos. Ele é evocado apenas no Evangelho de João, notadamente nesta passagem e naquela em que se indica que era natural de (João 21.2). Vários exegetas o identificam com Bartolomeu, mencionado nas listas apostólicas imediatamente depois de Filipe.

Esse encontro constitui uma etapa importante no reconhecimento progressivo da identidade messiânica de Jesus por seus primeiros discípulos.

IX. O terceiro dia: as bodas de Caná

João 2.1 (Bíblia Livre)

E no terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia; e a mãe de Jesus estava ali.Noteduas ou três metretas cerca de 100 litros (1 metreta era aproximadamente 40 litros

1- O cálculo do «terceiro dia»

Procuramos determinar o ponto de partida desses três dias para conhecer a data dessas bodas. Estabelecemos que Jesus inicia sua viagem de volta à Galileia em 19 de novembro do ano 29. A expressão «terceiro dia» parece ligar diretamente as aos acontecimentos anteriores, ainda que o ponto de partida exato do cálculo permaneça discutido.

Segundo a nossa estimativa, a chegada à Galileia (provavelmente a Nazaré) está prevista para a quarta-feira, 21, ou a quinta-feira, 22 de novembro do ano 29. Filipe reencontra então Natanael, provavelmente na sexta-feira, 23 de novembro. O encontro entre Jesus e Natanael se dá no mesmo dia.

Por conseguinte, o «terceiro dia» mencionado em João 2.1, depois desse encontro com Natanael e Filipe, seria o domingo, 25 de novembro do ano 29, dia em que começam as bodas em .

2- Os possíveis laços familiares

As bodas constituem, na sociedade judaica do século I, um acontecimento comunitário de grande importância. Vários indícios deixam entrever uma proximidade particular entre a família de Jesus e os organizadores da cerimônia:

  • Maria intervém diretamente quando falta o vinho (João 2.3).
  • Jesus e seus discípulos são convidados juntos (João 2.2).
  • Natanael, natural de segundo João 21.2, aparece no contexto imediato do relato.

Com base nisso, alguns autores sugeriram que Natanael poderia estar intimamente ligado a essa união. Outros sustentam que a noiva poderia ser uma das irmãs de Jesus, o que explicaria a presença de sua família. Contudo, essas hipóteses permanecem especulativas: nenhum texto bíblico as afirma expressamente.

A presença de toda a família de Jesus nessas bodas sugere uma ligação mais profunda do que um simples convite amistoso. É plausível que Natanael, ou um de seus parentes, se casasse com um membro da família de Jesus. A hipótese mais crível, segundo a nossa análise, é que Natanael se casa com uma irmã de Jesus, pois tradicionalmente as bodas se realizam na aldeia do noivo ou na casa de seu pai — aqui , e não Nazaré (João 21.2).

3- O primeiro sinal

Nessas bodas, Jesus realiza seu primeiro sinal público ao transformar a água em vinho (João 2.7-9). João conclui:

«Este princípio de sinais fez Jesus em da Galileia; manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele.» (João 2.11)

Esse primeiro milagre inaugura publicamente o ministério do Messias na Galileia e revela progressivamente a sua glória aos olhos de seus discípulos. A escolha do vinho como primeiro sinal possui rico alcance simbólico, evocando a alegria messiânica e a abundância do reino vindouro (Isaías 25.6 ; Amós 9.13-14).

As

X. Tableau récapitulatif des dates

OrdemAcontecimentoDataReferência
1Batismo do Messias JesusQuinta-feira, 4 out. do ano 29Mateus 3.13-17 Marcos 1.9-11 Lucas 3.21-23
2A partida para o deserto da JudeiaQuinta-feira, 4 out. do ano 29Mateus 3.13 Marcos 1.9
3O período de tentaçãoDe sexta-feira, 5 de outubro, a quarta-feira, 14 de novembro do ano 29Mateus 4.1-11 Marcos 1.12-13 Lucas 4.1-13
4Os anjos servem o Messias JesusQuinta-feira, 15 nov. do ano 29Mateus 4.11 Marcos 1.13
5A voltaSexta-feira, 16 nov. do ano 29João 1.35
6Visita da delegaçãoSexta-feira, 16 nov. do ano 29João 1.19-20
7O primeiro dia seguinteSábado, 17 nov. do ano 29João 1.29
8O segundo dia seguinteDomingo, 18 nov. do ano 29João 1.35
9A descoberta de André e João (?)Domingo, 18 nov. do ano 29João 1.40
10O encontro com Simão (Pedro)Domingo, 18 nov. do ano 29João 1.41
11Simão será chamado CefasDomingo, 18 nov. do ano 29João 1.42
12O terceiro dia seguinteSegunda-feira, 19 nov. do ano 29João 1.43
13Partida para a GalileiaSegunda-feira, 19 nov. do ano 29João 1.43
14Encontro com FilipeSegunda-feira, 19 nov. do ano 29João 1.43
15A chegada à Galileia (Nazaré?)Quarta-feira, 21 nov. do ano 29 (ou quinta-feira, 22)
16Encontro de Filipe com Natanael (perto de Nazaré)Sexta-feira, 23 nov. do ano 29João 1.45
17Encontro de Natanael e Jesus (perto de Nazaré)Sexta-feira, 23 nov. do ano 29João 1.47
18Três dias depois, as Domingo, 25 nov. do ano 29João 2.1

XI. Notas explicativas sobre os acontecimentos principais

1- O batismo de Jesus (Ponto 1)

(Mateus 3.13-17 ; Marcos 1.9-11 ; Lucas 3.21-23)

Segundo a nossa reconstituição cronológica, o batismo de Jesus teria ocorrido na quinta-feira, 4 de outubro do ano 29. Esse acontecimento marca o início oficial de seu ministério público.

Os Evangelhos sinóticos relatam que Jesus vai a João Batista para ser batizado no Jordão. Mateus precisa que Jesus vem da Galileia (Mateus 3.13), Marcos indica que o batismo acontece no Jordão (Marcos 1.9), e Lucas situa esse acontecimento num contexto em que o povo vinha receber o batismo de João (Lucas 3.21).

Esse momento é confirmado por uma manifestação divina excepcional: os céus se abrem, o Espírito desce sobre Jesus como uma pomba, e uma voz celestial o designa como o Filho amado de Deus (Mateus 3.16-17 ; Marcos 1.10-11 ; Lucas 3.22).

2- A tentação no deserto (Pontos 2-4)

(Mateus 4.1-11 ; Marcos 1.12-13 ; Lucas 4.1-13)

Em seguida ao batismo, Jesus é imediatamente conduzido pelo Espírito ao deserto. Marcos emprega uma formulação particularmente forte ao indicar que o Espírito o «impele» logo para o deserto (Marcos 1.12).

Essa partida mostra que o ministério do Messias começa com uma provação. Antes de qualquer pregação pública, Jesus se retira para um lugar isolado, longe das multidões e das expectativas humanas. Essa etapa lembra os grandes tempos de preparação espiritual na história bíblica, notadamente os de Moisés (Exodo 34.28) e de Elias (1 Reis 19.8).

Ao término da tentação, o diabo se afasta de Jesus e anjos vêm servi-lo (Mateus 4.11 ; Marcos 1.13). Essa intervenção marca o fim da provação e confirma a vitória do Messias sobre a tentação. O serviço dos anjos sublinha que Jesus, embora tenha realmente conhecido o cansaço, a fome e a fraqueza humana, permanece sob a assistência e a aprovação de Deus.

3- O primeiro «dia seguinte» (Ponto 7)

(João 1.29-34)

No dia seguinte à visita da delegação vinda de Jerusalém, João Batista vê Jesus vir em sua direção e declara publicamente: «Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (João 1.29).

Essa declaração constitui uma das principais afirmações teológicas do início do Evangelho de João. João Batista identifica agora claramente Jesus como aquele que realizará a obra da salvação.

João testemunha também ter visto o Espírito descer sobre Jesus por ocasião do batismo: «Vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre ele» (João 1.32). O batismo do Messias já passou, portanto, no momento dessa declaração, o que confirma que os acontecimentos de João 1.29-34 devem ser situados depois dos relatos sinóticos do batismo e da tentação.

4- O segundo «dia seguinte» (Ponto 8)

(João 1.35-39)

No dia seguinte de novo, João Batista está com dois de seus discípulos quando aponta mais uma vez Jesus: «Eis o Cordeiro de Deus» (João 1.36).

Em seguida a essa declaração, os dois discípulos começam a seguir Jesus (João 1.37). Um deles é expressamente identificado como André (João 1.40). O outro não é nomeado, mas vários exegetas consideram que poderia tratar-se do próprio apóstolo João.

O relato ressalta aqui o papel fundamental de João Batista: ele prepara o caminho do Messias, reconhece publicamente sua identidade e depois dirige voluntariamente os próprios discípulos a ele. Como João Batista dirá mais tarde: «Convém que ele cresça e que eu diminua» (João 3.30).

5- As bodas de Caná (Ponto 15)

(João 2.1-11)

João prossegue seu relato indicando:

João 2.1 (Bíblia Livre) :
E no terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia; e a mãe de Jesus estava ali.Noteduas ou três metretas cerca de 100 litros (1 metreta era aproximadamente 40 litros

Nessas bodas, Jesus realiza seu primeiro sinal público ao transformar a água em vinho (João 2.7-9). Esse milagre inaugural possui uma dimensão simbólica profunda. A água das purificações judaicas — contida em seis talhas de pedra destinadas aos ritos de purificação (João 2.6) — é transformada em vinho novo e excelente.

Essa transformação evoca a passagem da antiga aliança para a nova, do rito exterior para a alegria interior, da letra para o espírito. O vinho, símbolo de alegria e de festa na tradição bíblica, anuncia a abundância do reino messiânico (Isaías 25.6 ; Jeremias 31.12 ; Amós 9.13-14).

João conclui:

João 2.11 (Bíblia Livre) :
Este princípio de sinais Jesus fez em Caná da Galileia, e manifestou sua glória; e seus discípulos creram nele.

Esse primeiro milagre inaugura publicamente o ministério do Messias na Galileia e revela progressivamente a sua glória aos olhos de seus discípulos.

Conclusão

Observamos que as informações adicionais fornecidas por João podem ser integradas de maneira coerente aos dados dos Evangelhos sinóticos após uma análise minuciosa. Convém ressaltar que o objetivo principal dos autores desses textos não era fornecer uma biografia exaustiva. Por conseguinte, é imperativo recolocar, como num quebra-cabeça, os diversos fatos relatados em sua ordem cronológica, o que pode por vezes revelar-se complexo.

Parece claro que o objetivo de João, depois de estudar os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, era completar a cronologia deles, que julgava simplificada demais. As informações adicionais que fornece podem parecer contraditórias em relação às dos sinóticos se não forem examinadas com atenção.

A hipótese cronológica que propomos decorre diretamente dos textos. Somos obrigados, em particular para o período de tentação, a avaliar durações de deslocamento que nos parecem críveis.

Evidentemente, essa cronologia que propomos permanece uma hipótese. Faltam-nos provas para sustentar todas essas propostas, e conhecemos o adágio: «o que pode ser afirmado sem provas pode ser rejeitado sem provas».

Contudo, nosso objetivo não é afirmar que os acontecimentos se deram exatamente como propomos, mas simplesmente demonstrar que uma harmonia entre os relatos sinóticos e o de João permanece plausível.

Temos, apesar disso, a sensação de nos aproximar da verdade respeitando todas as informações de que dispomos.

Depois de uma análise aprofundada, constatamos uma notável coerência entre os quatro Evangelhos. Essa observação não surpreende, pois esses autores documentaram seus testemunhos de maneira rigorosa.