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Chega a tropa conduzida por Judas Iscariotes

O artigo trata da prisão de Jesus por Judas Iscariotes no jardim do Getsêmani, como descrita nos Evangelhos. Analisa o contexto e as implicações desse acontecimento-chave na paixão de Jesus, explorando os relatos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

33 min prisão Judas Iscariotes Jesus Paixão Evangelhos 49 versículos 6 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus 26.46-47 (Bíblia Livre)

Levantai-vos, vamos! Eis que chegou o que me trai.

Enquanto ele ainda estava falando, eis que veio Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e bastões, da parte dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo.

Marcos
Marcos 14.42-43 (Bíblia Livre)

Levantai-vos, vamos; eis que o que me trai está perto.

E logo, enquanto ele ainda estava falando, veio Judas, que era um dos doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e bastões, da parte dos chefes dos sacerdotes, dos escribas, dos anciãos.

Lucas
Lucas 22.47-48 (Bíblia Livre)

E enquanto ele ainda estava falando, eis que uma multidão chegou ; e um dos doze, o que se chamava Judas, ia adiante deles, e se aproximou de Jesus, para o beijar.

E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais ao Filho do homem?

João
João 18.2-3 (Bíblia Livre)

E também Judas, o que o traía, conhecia aquele lugar; porque muitas vezes se juntara ali Jesus com seus discípulos.

Tendo Judas, pois, tomado a tropa e alguns dos oficiais dos sacerdotes e dos fariseus, veio ali com lanternas, tochas, e armas.

Detalhes técnicos

Ano 33

Local: O jardim do Getsêmani, ao pé do monte das Oliveiras, em frente à cidade de Jerusalém

Data: sexta-feira, 1º de abril, bem cedo pela manhã

Método: Seguimos agora Marcos

Nota sobre o modo de proceder: Mateus, Lucas e João também registram este acontecimento

Mapa de Jerusalém e região
Gráfico de barras de sexta-feira

A tropa de soldados conduzida pelo apóstolo Judas Iscariotes chega para prender Jesus, o Messias.

Detalhes cronológicos, segundo as nossas conclusões:

_8 Eles param ao pé do , no jardim do Getsêmani. Mateus 26.36; Marcos 14.32.

_9 Passam uma hora em oração, das 2 às 3 h. Mateus 26.40.

_10 Chega a tropa conduzida por Judas Iscariotes. Ainda é a noite de quinta-feira, antes da aurora de sexta-feira, por volta das 3 h. Marcos 14.43-52; Mateus 26.47-56; Lucas 22.47-53; João 18.2-12.

_11 A prisão ocorre nesse momento, por volta das 3h30. Estamos a cerca de 1 km do Templo. Mateus 26.47; Marcos 14.43; Lucas 22.47; João 18.3.

Você pode consultar toda essa cronologia no estudo ANN026 : A hora da crucificação.

Comentário:

Nessas quatro passagens, estamos no momento decisivo em que a paixão de Jesus, o Messias, entra em sua fase visível e irreversível. Depois da oração no Getsêmani, Jesus, o Messias, não procura mais evitar o confronto. Pelo contrário, entrega-se voluntariamente ao que deve acontecer. Em Mateus e Marcos, ele diz aos seus discípulos que se levantem, pois aquele que o entrega está perto. Essa palavra mostra que Jesus, o Messias, não é surpreendido pela chegada de Judas; ele sabe o que vem e caminha conscientemente para o cumprimento das Escrituras (Mateus 26.45-46) (Marcos 14.41-42) (João 18.4).

Há algo surpreendente no comportamento de Judas Iscariotes. Ele não conduz a tropa à casa de Maria, onde a refeição provavelmente havia ocorrido, lugar que conhecia, pois acabara de deixá-lo. Leva os soldados ao jardim das Oliveiras, esse lugar de retiro habitual aonde Jesus, o Messias, ia com frequência com seus discípulos. João o ressalta explicitamente: Judas conhecia aquele lugar, porque Jesus, o Messias, se reunira ali muitas vezes com eles (João 18.2). Isso pode sugerir que Judas não procurava primeiro entregar todo o grupo, mas apontar Jesus, o Messias, num lugar onde estaria mais isolado, longe da multidão e talvez até afastado de alguns simpatizantes.

Essa hipótese não é absurda. Pode-se perguntar se Judas queria, de certa maneira, poupar os outros discípulos para atingir apenas Jesus, o Messias. Aliás, no Evangelho de João, o próprio Jesus, o Messias, protege os seus no momento da prisão, dizendo:

João 18.8 (Bíblia Livre) :
Respondeu Jesus: Já vos disse que eu sou. Portanto se buscais a mim, deixai a estes irem.

Isso corresponde à palavra segundo a qual nenhum dos que o Pai lhe dera deveria perder-se (João 18.9), (João 17.12). Mesmo que Judas traia seu mestre, não é impossível que tenha pensado em limitar o alcance imediato de seu ato. Mas essa eventual nuance não diminui em nada a gravidade de sua traição, pois ele entrega deliberadamente o Messias nas mãos de seus inimigos (Lucas 22.48), (Atos 1.16-18).

Mas as autoridades religiosas não teriam podido parar apenas em Jesus, o Messias. Depois da morte do Messias, teriam necessariamente interesse em chegar ao círculo de seus discípulos para sufocar todo o nascente movimento messiânico. É exatamente o que mostra a sequência do relato em Atos: os chefes religiosos perseguirão os apóstolos, procurarão calá-los, prendê-los e ameaçá-los (Atos 4.1-3), (Atos 5.17-18), (Atos 5.40). A intenção das autoridades não era, portanto, apenas neutralizar um homem isolado, mas extinguir o que percebiam como um perigo religioso, teológico e talvez político (João 11.47-50).

O fato de Judas usar um beijo pareceu muitas vezes surpreendente, já que Jesus, o Messias, era uma personalidade pública muito conhecida. Ele ensinava no Templo, à vista de todos, e o próprio Jesus, o Messias, lembra que falava publicamente todos os dias sem que o prendessem (Mateus 26.55), (Marcos 14.49), (Lucas 22.53). No entanto, esse gesto tinha uma utilidade precisa.

Em primeiro lugar, a prisão ocorre à noite, num jardim, em condições de visibilidade reduzida, com um grupo de homens armados e certa tensão. Era preciso um sinal combinado de antemão para evitar qualquer confusão (Marcos 14.44). Em seguida, era importante, no quadro do procedimento, que o delator indicasse ele mesmo o homem a ser preso. Judas torna-se assim a testemunha-ator da identificação. As autoridades podem então aparecer como quem apenas executa uma prisão legalmente fundada em uma denúncia direcionada, e não como uma operação arbitrária.

Essa precisão esclarece também o modo como agiram durante a festa da Páscoa. Prender Jesus, o Messias, em pleno período sagrado podia chocar. Os chefes haviam, aliás, procurado evitar uma prisão pública durante a festa, por medo de um tumulto entre o povo (Mateus 26.3-5), (Marcos 14.1-2), (Lucas 22.2).

O recurso a Judas permitia uma intervenção discreta, à noite, longe das multidões, dando ao mesmo tempo à operação uma aparência de legalidade religiosa. Pode-se dizer que queriam mostrar que não agiam contra um inocente, mas contra um homem apontado como perigoso. Assim, segundo a lógica deles, apenas aplicavam a lei. Isso lhes permitia justificar uma ação mesmo durante a grande festa.

É preciso também notar o contraste moral impressionante que Lucas destaca. Judas se aproxima para beijar Jesus, o Messias, que lhe responde:

Lucas 22.47-48 (Bíblia Livre) :
E enquanto ele ainda estava falando, eis que uma multidão chegou ; e um dos doze, o que se chamava Judas, ia adiante deles, e se aproximou de Jesus, para o beijar.E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais ao Filho do homem?

O beijo, sinal de afeto, de honra e de proximidade, torna-se o instrumento da traição. É um dos aspectos mais trágicos da cena: o símbolo da amizade é desviado para entregar o justo. Isso lembra a dor expressa nos salmos diante da traição vinda de um próximo, e não de um inimigo declarado (Salmos 41.10), (Salmos 55.13-15). Mateus acentua ainda mais essa dolorosa ironia quando Judas diz: «Salve, Rabi!» antes de beijá-lo (Mateus 26.49). A cortesia exterior esconde aqui uma ruptura interior total.

João traz detalhes adicionais muito importantes. Ele não menciona o beijo, sem dúvida porque quer pôr em destaque a soberania de Jesus, o Messias. Judas vem com uma coorte e guardas fornecidos pelos principais sacerdotes e pelos , munidos de lanternas, tochas e armas (João 18.3). Essa encenação sugere que esperam prender alguém perigoso ou ter de dominar uma resistência. No entanto, Jesus, o Messias, toma a iniciativa. Avança e pergunta: «A quem buscais?» (João 18.4). Quando respondem: «A Jesus, o Nazareno», ele declara: «Sou eu», e eles recuam e caem por terra (João 18.5-6). Esse detalhe mostra que Jesus, o Messias, não é capturado por ser impotente, mas porque consente em entregar-se. Sua paixão não é um acidente sofrido; é uma oferta voluntária (João 10.17-18).

Assim, os quatro relatos se completam admiravelmente. Mateus e Marcos insistem na iminência da hora e na traição que se aproxima. Lucas ressalta a gravidade espiritual do beijo de Judas e a dignidade de Jesus em meio à injustiça. João destaca o conhecimento do lugar por Judas, a organização da prisão e, sobretudo, o domínio total de Jesus, o Messias, sobre os acontecimentos. Juntos, mostram que a traição de Judas é real, que a culpa das autoridades é plena, mas que tudo isso se inscreve também no desígnio soberano de Deus para a salvação do mundo (Atos 2.23), (Atos 4.27-28).

No plano teológico, esse momento revela ao mesmo tempo o pecado humano e o amor divino. O homem trai, manipula, mente, prende injustamente. Mas Deus, mesmo através dessa escuridão, cumpre seu projeto de redenção. Jesus, o Messias, vai livremente ao encontro de sua prisão, depois de sua morte, não porque foi vencido, mas porque veio para salvar. É aqui que a paixão alcança o coração do Evangelho:

João 3.16-17 (Bíblia Livre) :
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.Porque Deus não mandou seu Filho ao mundo para que condenasse ao mundo; mas sim para que o mundo por ele fosse salvo;

O jardim da prisão é, portanto, já o limiar da salvação.

Em resumo, a escolha do lugar por Judas provavelmente não é casual. Ele conhecia os hábitos de Jesus e usa esse conhecimento para permitir uma prisão discreta, longe da multidão. Pode-se perguntar se buscava atingir apenas Jesus, o Messias, sem expor imediatamente os outros discípulos. O beijo, por sua vez, não era inútil apesar da notoriedade de Jesus: servia de sinal preciso de identificação e dava à prisão um quadro formal que podia ser apresentado como legal. Por fim, esses relatos mostram sobretudo que, por trás da traição de Judas e da manobra das autoridades, Jesus, o Messias, permanece senhor da situação, avançando voluntariamente para a hora para a qual tinha vindo (Mateus 20.28), (João 12.27), (João 18.11).