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A última ceia da Páscoa

O artigo analisa a cronologia da última Páscoa segundo os Evangelhos, ressaltando que Jesus foi crucificado na sexta-feira, 1.º de abril de 33 d.C., em concordância com o sacrifício pascal judaico. Essa perspectiva demonstra um cumprimento profético perfeito, em que Cristo é visto como o Cordeiro de Deus, que proporciona a redenção divina.

46 min Páscoa crucificação Jesus Evangelhos profecia 27 versículos 11 livros

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Introdução

João relata a crucificação do Messias Jesus numa sexta-feira de Páscoa, sem precisar o ano, mas, segundo os cálculos astronômicos e as referências históricas, duas datas possíveis se destacam no período em questão: 7 de abril do ano 30 e 1.º de abril do ano 33. O estudo da profecia das setenta semanas apresentada em Daniel 9.24-27, que anuncia com notável precisão o tempo da vinda e da morte do Messias, leva-nos a descartar a primeira data. Tudo indica, com efeito, que Jesus morreu na cruz numa sexta-feira de Páscoa, em 1.º de abril do ano 33, cumprindo assim a profecia e coincidindo com a festa em que o cordeiro pascal devia ser sacrificado.

Nosso objetivo é compreender de que maneira se desenrolou a festa da Páscoa naquele ano e explicar as diferenças aparentes entre o relato do apóstolo João e os dos Evangelhos sinóticos. João precisa que a crucificação ocorreu no dia da preparação da Páscoa, isto é, na véspera do , ao passo que Mateus, Marcos e Lucas parecem situar a última ceia do Senhor durante a própria festa (Mateus 26.17; Marcos 14.12; Lucas 22.7; João 19.14). Essa divergência, frequentemente apontada, não constitui uma contradição, mas reflete pontos de vista complementares segundo o calendário judaico e o contexto religioso da época. Os judeus da Judeia seguiam às vezes um cômputo diferente do dos galileus, e é perfeitamente possível que Jesus e seus discípulos tenham celebrado a ceia pascal uma noite antes, de acordo com o calendário galileu, enquanto as autoridades religiosas de Jerusalém observavam a festa no dia seguinte. Assim, Jesus teria celebrado a Páscoa na quinta-feira à noite e teria morrido na hora em que os sacerdotes imolavam os cordeiros no recinto do Templo, na sexta-feira à tarde, cumprindo perfeitamente o símbolo do Cordeiro de Deus oferecido para a salvação do mundo (João 1.29; 1 Coríntios 5.7).

Para esclarecer a situação, é útil voltar à lei de Moisés, que fixava as prescrições precisas relativas à celebração da Páscoa (Exodo 12.1-14; Levítico 23.5-8; Números 9.1-14). O cordeiro devia ser escolhido no décimo dia do mês de nisã e sacrificado no décimo quarto, entre as duas tardes, isto é, no fim da tarde. A ceia pascal começava ao pôr do sol, marcando o décimo quinto de nisã, primeiro dia dos Pães sem fermento. É essa defasagem entre o momento em que o cordeiro era abatido e o da ceia que pode ter provocado interpretações diferentes. Ao insistir no fato de que Jesus morreu no próprio dia da preparação da Páscoa, João sublinha o paralelismo entre a morte de Cristo e o sacrifício ritual ordenado pela lei. A expressão “antes da festa da Páscoa” (João 13.1) designa, portanto, a quinta-feira dedicada aos preparativos, ao passo que a crucificação acontece no dia seguinte, no verdadeiro dia da Páscoa segundo o calendário sacerdotal.

Essa perspectiva evidencia uma notável coerência entre os relatos evangélicos. Mateus e João foram testemunhas diretas dos acontecimentos: Mateus viu com seus próprios olhos o desenrolar da Paixão, e João estava ao pé da cruz junto a Maria, mãe de Jesus (João 19.25-27). Marcos se apoia no testemunho preciso de Pedro, também presente no local (Marcos 14.54; Marcos 15.39-41), e Lucas, embora não tenha sido testemunha direta, empenhou-se em recolher com cuidado o testemunho dos que viram e ouviram (Lucas 1.1-4). Esses quatro evangelistas concordam no essencial: a crucificação ocorreu numa sexta-feira, dia de preparação que precede o , durante a festa da Páscoa (Marcos 15.42).

O sentido espiritual dessa coincidência é profundo. Ao morrer no mesmo dia em que os cordeiros pascais eram imolados, Jesus cumpria perfeitamente a figura anunciada havia séculos. Tornava-se o verdadeiro Cordeiro, aquele cujo sangue protege e resgata, não mais um povo, mas a humanidade inteira (Isaías 53.5-7; João 3.16-17). O calendário, os ritos e as profecias convergem nesse instante único em que a história e a revelação divina se encontram. A sexta-feira, 1.º de abril de 33, não é, portanto, apenas uma data histórica, mas o ponto culminante do plano de salvação estabelecido por Deus desde toda a eternidade.

I. A festa da Páscoa segundo a lei judaica

Notamos que Moisés precisa a data de Pessach (Páscoa): o 14.º dia do primeiro mês, isto é, 14 de nisã. No dia seguinte, o 15, começa a festa dos Pães sem fermento, que dura 7 dias, até 21 de nisã.

– O que significa o pôr do sol de 14 de nisã, já que os dias mudam justamente no pôr do sol?

– Já estamos no dia 15 ou no fim do 13?

– O dia 14 de nisã está começando ou terminando?

O dia judaico começa com a noite Gênesis 1.5, portanto o dia 14 de nisã começa ao pôr do sol, o que para nós corresponde a 31 de março, por volta das 18h, no ano 33.

O mês de nisã

O mês de nisã

É importante compreender que, na tradição judaica, a expressão “o décimo quarto dia do primeiro mês, ao pôr do sol” designa o início do dia 14 de nisã. Segundo o calendário hebraico, um novo dia começa ao pôr do sol, e não à meia-noite como no sistema gregoriano. Por conseguinte, a festa de Pessach começa na noite de 13 de nisã, por volta das 18h, marcando a passagem para 14 de nisã.

Se o pôr do sol do 14.º dia marcasse o fim do dia, entraríamos no 15.º dia, que corresponde ao início da festa dos Pães Asmos. Nesse caso, a celebração de Pessach se reduziria de fato a alguns instantes apenas, o que não é coerente com a duração tradicional da festa.

Assim, concluímos que o início do dia 14 de nisã, e portanto o começo de Pessach, situa-se na noite de 13 de nisã, quando a noite começa, geralmente estimada às 18h00. Essa compreensão está de acordo com as práticas e crenças judaicas sobre a contagem dos dias e das festas religiosas.

A última das dez pragas do Egito, a morte dos primogênitos, constitui a origem da festa da Páscoa. Essa praga atinge o Egito no meio da noite, por volta da meia-noite. Enquanto isso, os hebreus, prontos para partir, alimentam-se do cordeiro assado e comem pão sem fermento, por não terem tido tempo de deixá-lo levedar.

O cordeiro de um ano, que geralmente pesa uns vinte quilos e é abatido entre as 18h e as 18h30, só podia ser comido depois de um cozimento de cerca de 4 a 5 horas. Todas as famílias judias tinham preparado o cozimento desse cordeiro em previsão de sua partida.

O peso da carne comestível representa cerca de 50% do peso total do animal. Considerando uma porção média de 250 g por pessoa, pode-se estimar que uma quarentena de pessoas podia alimentar-se de um único animal. As casas abrigavam não somente os pais e os filhos, mas muitas vezes também os avós, aumentando assim rapidamente o número de convivas. Algumas famílias, conforme o tamanho, puderam consumir o animal inteiro, enquanto outras, menores, convidaram vizinhos. As sobras, reduzidas ao mínimo, deviam ser queimadas.

A partida do povo de Israel não podia começar antes da meia-noite, conforme o relato bíblico. É importante notar que o Faraó convocou Moisés nessa mesma noite, depois da morte dos primogênitos. A partida dos hebreus, portanto, provavelmente não foi ordenada antes do retorno de Moisés, que poderia ter ocorrido por volta de 1h ou 2h da manhã.

Esse acontecimento marcante, a libertação dos hebreus do Egito, devia ser comemorado todos os anos. Assim, no início da primavera, os hebreus celebravam a Páscoa em memória dessa grande libertação realizada pelo .

A Páscoa é cercada por regras muito precisas, que todos os membros do povo deviam respeitar escrupulosamente. A preparação da Páscoa começa já no 10.º dia do mês de nisã. Nessa data, um cordeiro sem defeito deve ser escolhido e separado, tendo em vista o seu sacrifício, que ocorrerá em 14 de nisã.

A expressão “entre as duas tardes”, da tradução NEG (), dá-nos uma precisão adicional em relação à : ao pôr do sol.

Pensamos que se trata aqui do intervalo de tempo entre o crepúsculo e o pôr do sol. Da mesma forma, de manhã observamos uma diferença de cerca de 30 minutos entre a aurora e o nascer do sol; poderíamos dizer: entre as duas manhãs.

Com as informações dadas nesses textos, podemos estabelecer a cronologia dos acontecimentos dessa primeira Páscoa.

DataTarefa
10 de nisã (começa no dia 9 às 18h00)Um cordeiro (ou um cabrito) é separado.
14 de nisã (começa no dia 13 às 18h00)O cordeiro é imolado.
13 de nisã às 18h00 e o dia 14 às 18h30A hora precisa da imolação.
14 de nisãA Páscoa.
De 15 a 21 de nisãA festa dos Pães sem fermento.
21 de nisãA festa das Primícias.

A lei de Moisés impunha aos judeus celebrar essa festa, bem como outras duas, todos os anos.

- A festa dos Pães sem fermento começa no dia seguinte a Pessach, a Páscoa. Começa na noite de 14 de nisã, que é o início desse dia, e dura 7 dias, até 21 de nisã. Engloba, portanto, a Páscoa.

- A festa das Semanas, Shavuot ou Pentecostes, começa 50 dias depois de Pessach; em seguida vem a apresentação do feixe de cevada, a festa das primícias, em 6 de sivã, que celebra o início das colheitas.

- A festa das Tendas ou dos Tabernáculos, , celebra a assistência divina; realiza-se em 15 de tishri.

Nesse texto notamos que os Pães sem fermento começam com o início da Páscoa, mesmo que a festa propriamente dita só comece no dia seguinte.

II. A festa da Páscoa judaica nos dias de hoje

A festa judaica da Páscoa de 2023, em Israel, decorre da noite de quarta-feira, 5 de abril, até a noite de quinta-feira, 13 de abril. Termina no dia 14 para a diáspora.

O dia 5 de abril corresponde a 14 de nisã; a correspondência das datas se faz sobre a parte diurna do dia, mas a data judaica começa na véspera, ao pôr do sol.

As duas primeiras noites são dedicadas à ceia da Páscoa, o Seder. Observamos, portanto, uma primeira ceia de Páscoa em 5 de abril e uma segunda em 6 de abril, isto é, em 14 de nisã e 15 de nisã. Em Israel o Seder se realiza na primeira noite e nos demais países na segunda.

A noite de 5 de abril, depois das 18h, corresponde a 15 de nisã para os judeus. Constatamos, portanto, que hoje os judeus fazem o Seder no fim do dia 14 de nisã.

Essas informações são amplamente desenvolvidas na Internet a fim de unificar todas as etapas dessa festa no mundo inteiro.

Mas a aplicação das instruções que regem essa lei no tempo do Messias Jesus nos interessa mais particularmente.

III. A prática no tempo do Messias Jesus

Os judeus, e em particular o Messias Jesus, respeitam pelo menos a festa da Páscoa sob a forma de uma peregrinação ao templo de Jerusalém. Essa prescrição religiosa só aparece, como complemento da lei, muito mais tarde, depois da construção do Templo.

Os judeus que tinham meios financeiros deviam ir ao templo em Jerusalém. O número de peregrinos, entre 300 000 e 400 000 (Wikipédia), como veremos um pouco mais adiante, é, portanto, muito grande, e cada um tentava encontrar hospedagem, pois a festa durava 7 dias.

Com essa superpopulação, a desordem tornava-se extrema. Alguns construíam cabanas, outros, tendas. Felizmente, as temperaturas, neste mês de nisã, ficam amenas.

A data dessa festa, fixada em 14 de nisã, durava 7 dias. Esse período, chamado dias dos Ázimos ou dos pães sem fermento, começava em 14 de nisã, portanto por volta das 18h da véspera, segundo o nosso calendário gregoriano.

IV. Quando devia acontecer a ceia da Páscoa?

Segundo a nossa análise dos textos de Moisés, a ceia da Páscoa devia realizar-se no início do dia 14 de nisã, com o abate dos cordeiros entre as 18h e as 18h30. Os judeus comiam, portanto, o Seder por volta das 23h, o tempo necessário para o cozimento da carne.

No entanto, essa prática teórica mostrou-se difícil de observar na época do Messias Jesus. Observamos que essa ceia, prevista inicialmente para 14 de nisã, era por vezes adiada para 15 de nisã por certos grupos. Além disso, nem todas as comunidades observavam o mesmo calendário. Por exemplo, os não seguiam à letra as prescrições das autoridades religiosas judaicas de Jerusalém. A situação era semelhante entre os .

É, portanto, complexo afirmar com certeza a hora exata em que essa ceia devia realizar-se. Em Jerusalém, o sumo sacerdote, como Caifás naquela época, desempenhava um papel fundamental na determinação do momento exato da ceia.

Contudo, é pertinente perguntar se todos os peregrinos obedeciam estritamente a esse homem, sobretudo quando se considera que o comércio continuava ativo, inclusive com os mercadores e cambistas no pátio do Templo.

Constatamos assim que havia uma certa adaptação das práticas, cada grupo fazendo a sua ceia em função das diretrizes governamentais, de suas tradições e das limitações práticas. Essas variações serão exploradas mais detalhadamente na sequência do nosso estudo.

V. De onde vem o princípio do sacrifício no Templo?

O texto bíblico estipula que cada chefe de família judia devia abater um cordeiro ou um cabrito entre o crepúsculo e a noite para a Páscoa, segundo a nossa interpretação das Escrituras. Moisés, seguindo as diretrizes divinas, organizou o sistema religioso, notadamente os sacrifícios. Com a construção do Tabernáculo e, mais tarde, do Templo de Salomão, os judeus puderam regular esses sacrifícios e ofertas. Os levitas estavam encarregados do serviço religioso, e Davi havia estabelecido 24 turnos de sacerdotes para estruturar as atividades do Templo 1 Crônicas 24.1-19.

Os chefes de família judeus traziam suas ofertas ou sacrifícios, e os sacerdotes oficiavam. Uma parte dessas ofertas cabia aos sacerdotes como remuneração. Na época de Jesus, os vendedores de animais para os sacrifícios estavam instalados na esplanada do Templo havia cerca de 60 anos, ao passo que antes ficavam do outro lado do vale do Cedrom.

Uma grande mudança ocorreu em 30 a.C., quando as autoridades religiosas decidiram controlar esse comércio, convidando os vendedores a se instalarem no pátio do Templo, no espaço reservado aos não judeus. As colunatas periféricas ofereciam aos vendedores e aos animais um abrigo contra o sol, melhorando assim as condições de higiene.

Segundo João 2.20, as obras de renovação do Templo duraram 46 anos, começando em 20 ou 19 a.C. e terminando por volta do ano 28 d.C. Durante esse período, o mercado de animais foi perturbado. No entanto, com a aprovação do sumo sacerdote Caifás, os comerciantes puderam voltar a uma esplanada renovada no ano 30 d.C., desenvolvendo ainda mais a sua atividade.

Essa nova dinâmica comercial suscitou reações entre os judeus piedosos. Jesus intervém nesse contexto político, denunciando essas práticas durante a sua passagem pelo Templo, como relata João 2.13-22. Essas condições de higiene melhoradas e o controle facilitado dos animais pelos sacerdotes justificavam essa instalação na esplanada do Templo. Contudo, a verdadeira motivação parece ser a rentabilidade financeira.

As autoridades religiosas judaicas controlavam, a partir de então, todo esse mercado lucrativo, com receitas financeiras consideráveis para o tesouro do Templo e seus dignitários. Os peregrinos deviam adquirir siclos de Tiro para todas as transações, a única moeda aceita no Templo, o que acarretava a presença de numerosos cambistas.

A taxa de câmbio favorecia os religiosos do Templo, tanto mais que os peregrinos trocavam seus siclos restantes pela moeda de origem antes de partir. Jesus, ao intervir contra essa prática, enfrentou uma oposição significativa. Três anos depois, em abril do ano 33, sua ação contra os cambistas teria consequências dramáticas.

Esse contexto explica por que as não reagiram imediatamente contra Jesus, pois a decisão de Caifás não era unanimemente aprovada, sobretudo entre os judeus piedosos.

VI. As exigências práticas de uma festa como essa

Os judeus, por ocasião da festa da Páscoa, vinham ao Templo de Jerusalém para comemorar essa grande libertação realizada pelo .

Flávio Josefo (Guerra dos Judeus 2 / 280) fala de 3 milhões de peregrinos. O número parece exagerado e pensa-se antes em várias centenas de milhares. A população de Jerusalém explode nessa ocasião, e compreendemos as preocupações do prefeito Pôncio Pilatos, responsável pela segurança na época. Cada peregrino havia economizado para pagar o cordeiro do sacrifício.

– Como sacrificar tantos animais?

– Quanto tempo os sacerdotes precisavam para matar todos esses animais?

O Templo não se transformava num simples matadouro; os judeus deviam respeitar diversas regras.

Os animais deviam passar pelo Tanque de Israel para serem lavados e depois entravam na esplanada do Templo pela porta das Ovelhas, situada perto da fortaleza Antônia.

Ao norte do altar ficava o matadouro. Os animais destinados ao sacrifício deviam ser previamente amarrados. Quatro fileiras de seis argolas, fixadas na pedra, na entrada da casa do Templo, permitiam essa apresentação diante do Eterno Levítico 1.11.

Os animais abatidos sobre 8 mesas de mármore eram em seguida pendurados em 8 pilares, e o sacerdote preparava assim o animal com mais facilidade. Compreendemos facilmente que todo esse cerimonial, durante a festa da Páscoa, com esses milhares de peregrinos, durava muitas horas.

Podemos precisar esse tempo sem, no entanto, defini-lo exatamente.

O cordeiro de um ano, especificado pela lei, pesa normalmente entre 25 e 30 kg. A metade do peso, constituída pelo sangue, pelos ossos e pelas vísceras, devia ser queimada. Restam 15 kg de carne comestível. Se contarmos um consumo de 250 g por pessoa, pensamos que isso serve para umas 60 pessoas.

O Seder, festa familiar por excelência, exige a presença de toda a família, o que aumenta consideravelmente o número de participantes. Levando em conta uma população total de 300 000 peregrinos, incluindo os judeus residentes na cidade de Jerusalém, o que parece um número razoável, chegamos a uma população total, com as famílias, de no mínimo 1,2 milhão de pessoas.

Os sacerdotes deviam imolar cerca de 20 000 cordeiros! O sangue corria em torrentes no templo; um sistema de canaletas com circulação de água permitia escoá-lo para o vale do Cedrom, no nosso caso cerca de 32 000 litros, sem contar a água!

Procuramos demonstrar a impossibilidade de abater essa quantidade de animais entre 13h e 17h na sexta-feira da Páscoa.

Todos os trabalhos de limpeza deviam terminar antes das 17h, pois o começava por volta das 18h naquele ano; não se cogitava continuar a trabalhar nesse dia solene.

Podemos imaginar que servos ajudavam na preparação, mas parece difícil descer abaixo de um tempo de 1 minuto para o abate e o esquartejamento de um animal.

As 8 mesas de mármore e os 8 pilares para pendurar os animais aumentam consideravelmente o tempo. Nosso cálculo nos dá 480 animais abatidos por hora. Mesmo contando apenas 10 000 cordeiros, obtemos 20 horas de trabalho!

Estamos convencidos de que os sacerdotes, bem treinados nessa função, não perdiam um minuto, que se revezavam regularmente e que solicitavam a ajuda de alguns levitas para tarefas subalternas. Talvez, excepcionalmente, aumentassem o número de mesas e de pilares para reduzir ao máximo esse tempo.

Não possuímos informações históricas sobre essas condições de abate e estamos unicamente no âmbito de uma hipótese; mesmo assim, podemos razoavelmente concluir que, no caso da festa da Páscoa, o abate dos animais se estendia por dois dias.

Não esqueçamos também que uma parte inteira do animal devia ser queimada!

Parece-nos evidente que o trabalho devia começar na quinta-feira e terminar na sexta-feira.

Nem todas as famílias judias podiam comprar o cordeiro para a Páscoa ao mesmo tempo, nem, certamente, no mesmo dia! Elas deviam submeter-se a essas exigências práticas.

Estamos convencidos de que as autoridades religiosas da época aceitavam facilmente defasagens de horário no abate, tendo em vista todo o ganho financeiro proporcionado por essa operação.

A ceia da Páscoa constituía o ponto essencial dessa festa; os detalhes de horas, de lugar e de número de pessoas passavam ao segundo plano!

As famílias judias podiam, se o desejassem, conservar a carne o dia inteiro a fim de respeitar a hora legal do Seder definida pelo sumo sacerdote Caifás.

VII. A última ceia segundo Mateus, Marcos e Lucas

Chegamos a um ponto importante deste estudo, pois, como precisamos na introdução, se os 3 Evangelhos sinóticos confirmam uma ceia de Páscoa, João não fala dela e parece, assim, contradizer seus amigos!

Em primeiro lugar, os quatro autores dos nossos Evangelhos concordam em afirmar que a crucificação ocorreu numa sexta-feira, portanto logo depois da ceia! Podemos situar essa ceia no início do dia 14 de nisã.

A expressão “nesse mesmo dia” faz referência ao versículo 1.

Veja a versão NEG de Lucas 24.1.

Sabemos que o , ou seja, o sábado, encerra a semana judaica, que começa em seguida com o domingo, chamado aqui de primeiro dia da semana.

No domingo, os discípulos precisam que a morte do Messias Jesus remonta a 3 dias; dizem exatamente: já é o terceiro dia!

Essa precisão exclui naturalmente a quarta ou a quinta-feira. A crucificação ocorreu mesmo na sexta-feira!

Mateus e Lucas confirmam essa cronologia.

Lucas precisa bem que chegamos ao dia da festa da Páscoa. Essa ceia é de fato apresentada como o Seder; ela se realiza, portanto, numa sexta-feira, no início desse dia de Páscoa.

Mateus confirma as palavras de Lucas.

A forma empregada por Mateus continua surpreendente, pois ele poderia ter dito simplesmente o dia do . Mesmo assim, ao falar do dia seguinte, confirma a crucificação na sexta-feira.

No dia do , os encontram Pilatos.

Marcos, por seu lado, também fala de uma véspera do , portanto, de fato, da sexta-feira!

Acabamos de ver que Mateus, Marcos e Lucas estabelecem uma cronologia semelhante:

– Uma ceia de Páscoa na quinta-feira à noite

– A crucificação na sexta-feira

– E o sepultamento na sexta-feira no fim do dia, antes das 18h.

João contradiz as afirmações de seus amigos?

VIII. O que significam as palavras de João?

João confirma aqui que a crucificação ocorreu na sexta-feira. Os corpos dos supliciados não deviam permanecer pendurados nas cruzes durante o dia do , o sábado.

No dia do ninguém se mexeu e, no domingo de manhã, as mulheres voltam ao túmulo. João confirma, portanto, os fatos descritos por Mateus, Marcos e Lucas.

De onde vem, então, a contradição?

Ela aparece quando tentamos precisar se a ceia em questão era uma ceia de Páscoa ou não!

Em outras palavras, o Seder da Páscoa cai na sexta-feira, como indica João, ou na quinta-feira, como parecem precisar Mateus, Marcos e Lucas?

IX. A contradição de João

Marcos e Lucas mencionam, assim como Mateus, o primeiro dia dos pães sem fermento, mas acrescentam o seguinte detalhe: em que se sacrificava o cordeiro pascal!

Segundo essas indicações, compreendemos que estamos na sexta-feira da Páscoa e que o Seder se realizará no fim do dia.

Lucas acrescenta em seu relato:

O Messias Jesus, segundo Lucas, afirma claramente que eles comem a ceia da Páscoa e que ela precede a crucificação!

João, por seu lado, afirma:

Por que o Messias Jesus menciona uma ceia de Páscoa se os , depois da prisão dele, se preparam justamente para essa ceia?

Há duas ceias de Páscoa, a primeira no início do dia 14 de nisã e a segunda no fim desse dia?

Evidentemente, João quis esclarecer o desenrolar desse dia, que não lhe parecia suficientemente claro no relato de seus amigos. Ele deseja pôr em evidência a concomitância do sacrifício dos cordeiros e da morte de seu Mestre.

Mas, ao fazê-lo, parece contradizer as afirmações de seus amigos. O que na época parecia evidente para todos surge como uma contradição em nossos dias simplesmente porque nos faltam informações históricas sobre os costumes judaicos.

Muitos pesquisadores tentaram apresentar uma explicação, mas nenhum documento histórico sustenta as suas teses.

X. Como entender o texto de Êxodo 12.6?

Veja a tradução NEG de Exodo 12.6.

Veja a tradução Darby de Exodo 12.6.

A questão continua sempre a mesma: estamos no início do 14.º dia, já que ele começa pela noite, ou no fim desse dia, que corresponderia então ao 15.º dia?

XI. Análise precisa dos textos

Procuramos classificar as informações ligadas à festa da Páscoa nos Evangelhos sinóticos e no de João.

Mateus

Teoricamente, o primeiro dia dos pães sem fermento começa no dia seguinte à Páscoa. Aqui, constatamos que estamos antes da festa da Páscoa; portanto, essa festa dos pães sem fermento leva em conta o dia da Páscoa e talvez também o que o precede.

As famílias judias deviam obrigatoriamente limpar suas casas e retirar todo vestígio de fermento. Esse trabalho podia certamente começar na véspera da festa da Páscoa.

Segundo Mateus: o dia seguinte corresponde de fato ao . Isso implica que a crucificação ocorreu na sexta-feira e que os , apesar do , vão à casa do prefeito , Pôncio Pilatos, para reclamar uma guarda em volta do túmulo.

O que significa a expressão: o primeiro dia dos pães sem fermento?

Encontramos um elemento de resposta na continuação do texto: onde queres que te preparemos a ceia da Páscoa?

Estamos, portanto, logo antes da ceia da Páscoa, o Seder.

Em que momento os judeus faziam o Seder no tempo do Messias Jesus?

Muitos historiadores afirmam que os animais eram abatidos em 14 de nisã, entre as 15h e as 17h, a partir das 13h quando a Páscoa caía na véspera do .

Isso significa que o Seder se realizava no fim do dia, portanto, segundo o cômputo judaico, em 15 de nisã, daí a seguinte interpretação:

Mateus não precisa o dia do Seder; nesta análise, conformamo-nos aos costumes mais frequentemente observados no tempo do Messias Jesus.

Apesar de tudo, não há ligação direta entre essa ceia e o Seder nas palavras de Mateus. O único detalhe Mateus 26.17 evoca que, no primeiro dia dos pães sem fermento, os discípulos falam de sua preparação sem afirmar por isso que a ceia que se segue, a da Santa Ceia, corresponda ao Seder.

Podemos, portanto, considerar que os discípulos falam da verdadeira ceia de Páscoa, a de 15 de nisã, mas que a descrita em seguida ocorre em 14 de nisã. Isso implica que Mateus chama de primeiro dia dos pães sem fermento a véspera da Páscoa, portanto a tarde de 13 de nisã.

Marcos

Marcos retoma as informações de Mateus, o que nos leva à mesma conclusão. Ele precisa bem que o dia em que o Messias Jesus pede a seus discípulos que preparem a Páscoa é o do pascal!

Lucas

Lucas também confirma as palavras de Mateus e de Marcos. No caso de seguirmos as práticas mais comuns observadas no tempo do Messias Jesus, chegamos à seguinte conclusão:

No âmbito dessa hipótese, todos os acontecimentos se desenrolam no dia seguinte à Páscoa, em 15 de nisã. Essa teoria se baseia no fato de que os cordeiros são sacrificados em 14 de nisã.

João

De fato, João confirma que a crucificação se deu na véspera de um sábado. Maria Madalena respeitou, portanto, esse dia especial e, no domingo, logo cedo, vai ao túmulo.

João, nos capítulos 13 a 17, relata as últimas instruções do Mestre a seus discípulos. Essas informações não aparecem nos Evangelhos sinóticos.

Ele nos situa a última ceia antes da festa da Páscoa. Não coloca, portanto, essa festa no mesmo dia que seus amigos, se respeitarmos a hipótese do Seder em 15 de nisã.

Os judeus ainda não tinham comido o Seder; nessas condições, estamos em 14 de nisã, e a ceia do Messias Jesus com seus discípulos foi feita no início do dia e não no fim, segundo o costume.

João precisa claramente a data da última ceia, a noite de quinta-feira. A diferença aparece, portanto, nitidamente aqui!

Por que essa última ceia é chamada de ceia da Páscoa nos Evangelhos sinóticos?

Nessas condições, onde compraram o cordeiro?

Seguindo a cronologia joanina, a morte do Messias Jesus corresponde exatamente ao momento dos sacrifícios dos cordeiros no Templo.

Como entender as afirmações de Mateus, de Marcos e de Lucas?

XII. Uma evidência

O autor do quarto Evangelho, redigindo seu texto depois dos de Mateus, de Marcos e até de Lucas, tinha por objetivo completar os escritos de seus predecessores, que havia manifestamente estudado com atenção.

Nesse contexto, seria difícil imaginar que ele quisesse contradizer os relatos deles. Essa ideia parece pouco plausível por pelo menos duas razões.

Primeiramente, Mateus, Pedro (cujos escritos são transmitidos por Marcos) e João foram testemunhas diretas dos acontecimentos que relatam. Como, então, poderiam enganar-se sobre fatos a que assistiram pessoalmente?

Em seguida, a intenção de João era fornecer informações adicionais, e não questionar os relatos de seus amigos. Parece claro que João queria aprofundar certos aspectos importantes da vida dos discípulos com Cristo, que talvez considerasse insuficientemente detalhados nos outros Evangelhos.

Se João tivesse identificado elementos suscetíveis de criar contradições, provavelmente teria tido o cuidado de esclarecê-los. Como não é o caso, podemos deduzir que, segundo João, seus acréscimos e esclarecimentos apenas confirmam e enriquecem os relatos de seus amigos.

Devemos, portanto, buscar uma interpretação que resolva as diferenças aparentes entre os relatos, em vez de considerá-las contradições.

XIII. Nossa explicação para essa suposta contradição

Seguimos as precisões trazidas por João. Isso implica que a última ceia do Messias Jesus com seus discípulos antes da crucificação não corresponde a um Seder oficial. Essa proposta nos parece mais natural na medida em que João procura documentar o cenário real dessa ceia.

Como entender, nessas condições, as diferentes alusões a uma ceia de Páscoa anotadas por Marcos e Lucas?

Toda a nossa explicação se baseia em imperativos materiais: os 10 000 cordeiros necessários para essa festa são sacrificados em cerca de 20 horas, segundo os nossos cálculos!

Os dirigentes religiosos faziam a sua ceia de Páscoa na noite de sexta-feira, segundo a sua interpretação dos textos de Moisés, ao passo que grande parte do povo devia ou conservar a carne o dia inteiro ou adiar o seu Seder.

Os sacerdotes que oficiavam no Templo davam um jeito de terminar o trabalho antes do fim do dia para fazer o Seder em família ao cair da noite.

Os textos dos Evangelhos nos impõem, portanto, ainda que nenhum vestígio histórico possa confirmá-lo, que os sacrifícios dos cordeiros começavam na véspera e que muitos judeus deviam conservar a carne até a noite ou fazer essa ceia na véspera.

A história conservou algumas informações sobre esses sacrifícios, e Flávio Josefo escreve que eles se realizavam na tarde de sexta-feira, das 15h às 17h. Ele descreve, em nossa opinião, a parte mais importante, a que pertence ao decoro, a parte emersa do iceberg. A realidade, mais prosaica, nos impõe dois dias de trabalho para preparar todos esses cordeiros.

No nosso caso, o Messias Jesus, sabendo que as autoridades religiosas planejavam assassiná-lo, pode muito bem ter decidido antecipar essa ceia de Páscoa.

Ele fala, com efeito, da última Páscoa! Essa decisão explicaria a ausência das famílias e dos anfitriões. Estamos no âmbito de uma ceia de despedida no dia da Páscoa.

Concluímos que deve ter havido duas ceias de Páscoa, a primeira na noite de quinta para sexta-feira com o Messias Jesus e seus discípulos, e a segunda, o Seder oficial, com todos os familiares, na noite de sexta-feira.

Como entender, nessas condições, o dia em que se sacrificava o cordeiro pascal?

A explicação que propomos, que nos permite conciliar esses textos, consiste em afirmar que os sacrifícios dos cordeiros começaram na tarde de quinta-feira. Vimos que cerca de vinte horas de trabalho eram necessárias para abater esses 10 000 cordeiros.

Isso significa concretamente que alguns judeus faziam o Seder no início do dia da Páscoa, portanto na noite de quinta-feira.

Parece até evidente, dada a falta de surpresa dos discípulos, que isso acontecia regularmente.

Apesar dessa explicação, podemos nos interrogar sobre a ausência das famílias!

XIV. A ausência das famílias

A ausência das famílias e dos familiares, quando sabemos que se encontravam em Jerusalém, permanece incompreensível no âmbito do Seder oficial. Somente uma ceia de trabalho poderia explicar a ausência deles. Todos deviam pensar que partilhariam juntos o Seder no dia seguinte. Apesar das diversas advertências do Messias Jesus, ninguém imaginava, naquele momento, os terríveis acontecimentos que iriam sobrevir.

Para responder a essa pergunta, pensamos que as famílias e os familiares previam uma ceia de Páscoa conforme os costumes na noite de sexta-feira. Mas o Messias Jesus, sabendo que sua prisão estava próxima, decidiu transformar a ceia de quinta-feira à noite numa ceia de Páscoa com seus discípulos. Essa explicação responde às diversas questões levantadas pelos autores dos Evangelhos, bem como à surpreendente ausência das famílias nessa última ceia.

Conclusão

Partimos do seguinte axioma: não há nenhum erro nos Evangelhos. Assim, somos obrigados a procurar uma explicação, em caso de diferenças nos fatos relatados, que nos permita harmonizar o conjunto.

A falta de informações históricas que possam nos ajudar obriga-nos a formular hipóteses, baseadas, no entanto, nas realidades da época. Propusemos, então, que o abate dos animais se desenrolasse ao longo de dois dias, explicando assim essa última ceia de Páscoa anotada por Marcos e Lucas.

Seguimos a cronologia de João para depois acrescentar as informações dos sinóticos. Essa última ceia não constitui o Seder oficial, mas uma ceia de trabalho, na véspera.

O Messias Jesus, prevendo sua morte próxima, transmitiu diversos ensinamentos, como a Santa Ceia, o lava-pés e os seis pontos relatados por João. É uma ceia de despedida.

O Messias Jesus, sabendo que sua hora havia chegado, transformou deliberadamente essa ceia de quinta-feira à noite numa ceia de Páscoa, tendo certamente pedido a seus anfitriões que lhe preparassem, excepcionalmente, um cordeiro e ervas amargas.