_1 O abate dos cordeiros começa na quinta-feira e continua na sexta-feira. – anexo ANN027 : A última ceia da Páscoa.
_2 A busca e a preparação do local para a Páscoa ocorrem na quinta-feira à tarde. (Marcos 14.12-16, Mateus 26.17-19, Lucas 22.7-13).
Pode consultar a cronologia completa no estudo ANN026 : A hora da crucificação.
Comentário:
1- O primeiro dia dos Pães Ázimos: uma festa dupla
A expressão usada nos três Evangelhos sinópticos, «o primeiro dia dos pães ázimos», designa o início da grande festa da Páscoa, que também incluía a dos Pães Ázimos (Mateus 26.17-19; Marcos 14.12-16; Lucas 22.7-13). Naquela época, estas duas celebrações eram consideradas um único período litúrgico, comemorando simultaneamente a saída do Egito e a fidelidade do povo em purificar a sua casa de todo o fermento, símbolo do pecado e da corrupção moral (Exodo 12.1-20; Exodo 13.3-10). Esta fusão no calendário testemunha a unidade teológica entre a libertação histórica de Israel e o seu apelo à santidade ritual (Deuteronômio 16.1-8).
2- A imolação do cordeiro pascal e as adaptações práticas
Segundo a prescrição mosaica, o cordeiro pascal devia ser imolado «entre as duas tardes», isto é, entre o pôr do sol e o anoitecer (Exodo 12.6; Números 9.3). Contudo, no tempo de Jesus, a enorme afluência de peregrinos a Jerusalém tornava difícil cumprir esta prescrição num intervalo tão curto. O Templo, centro nevrálgico do culto israelita, tinha de acolher dezenas de milhares de adoradores que vinham oferecer o sacrifício prescrito (Deuteronômio 16.5-6), formando intermináveis filas nos átrios sagrados.
Por necessidade pastoral e logística, as autoridades religiosas tinham, por isso, adaptado a regra mosaica, distribuindo o abate dos cordeiros por dois dias consecutivos. Esta adaptação testemunha a tensão permanente entre a letra da Lei e as exigências práticas da sua aplicação em grande escala.
3- Quinta-feira, 13 de nisã: dia de preparação
É muito provável que a quinta-feira, 13 de nisã, tenha sido dedicada a preparativos minuciosos: seleção dos cordeiros sem defeito (Exodo 12.5), abate ritual sob supervisão sacerdotal, confeção segundo as prescrições (Exodo 12.8-9) e organização da refeição, para que, ao cair da noite, cada família pudesse celebrar dignamente a festa na sua casa. Algumas famílias tinham até de conservar a carne até ao dia seguinte para participar no Seder oficial na sexta-feira à noite.
O evangelista João alude explicitamente a este momento quando escreve: «Antes da festa da Páscoa…» (João 13.1), designando assim claramente o dia de preparação. Com o tempo, este dia preparatório foi também integrado na festa dos Pães Ázimos, tão profundamente enraizada estava a proximidade entre as duas celebrações na consciência religiosa judaica.
4- A purificação das casas: dimensão espiritual da preparação
Nos lares israelitas, a preparação da festa revestia-se de uma dimensão profundamente espiritual. Cada família devia assegurar-se de que não restava qualquer vestígio de fermento em casa, realizando assim um ato simbólico de purificação interior (Exodo 12.15; Exodo 13.7). Esta prática ritual prefigurava a disposição de um coração pronto a apresentar-se diante de Deus com integridade e santidade.
O apóstolo Paulo retomará este simbolismo com uma profundidade cristológica notável: «Purificai-vos do fermento velho, para que sejais uma massa nova, uma vez que sois ázimos; pois Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado» (1 Coríntios 5.7-8). Assim, à aproximação de 14 de nisã, tudo devia estar pronto: as casas purificadas de todo o fermento, o cordeiro preparado segundo os ritos e a mesa posta para a refeição sagrada.
5- A missão confiada a Pedro e João
Pedro e João receberam então uma missão particular do Mestre: ir preparar a refeição pascal (Lucas 22.8). Com base em instruções que parecem misteriosas, mas que se revelam de uma precisão notável, deviam encontrar um homem a transportar uma bilha de água e segui-lo até à casa onde tudo já estaria preparado (Marcos 14.13-15; Lucas 22.10-12).
Este pormenor tem um significado particular: transportar água fazia habitualmente parte das tarefas femininas na sociedade palestiniana do século I. Um homem a realizar esta tarefa destacava-se, por isso, de imediato na multidão de peregrinos. Esta indicação precisa atesta a presciência profética do Senhor e o seu domínio soberano dos acontecimentos futuros (Isaías 46.10).
6- A sala de cima: um lugar providencial
Segundo a tradição eclesial mais solidamente estabelecida, esta casa pertencia provavelmente a Maria, mãe de João Marcos, discípulo da primeira comunidade cristã (Atos 12.12). O anfitrião, homem fiel e discreto, já tinha reservado a sala de cima (anagaion em grego, designando uma divisão no piso superior) e preparado tudo o que era necessário para a refeição pascal (Marcos 14.15).
Este lugar tornar-se-ia um importante símbolo eclesial: o da última refeição, da instituição da Santa Ceia (Lucas 22.19-20; 1 Coríntios 11.23-26) e, posteriormente, da reunião dos discípulos no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja nascente (Atos 1.13; Atos 2.1-4). A sala de cima constitui assim o berço geográfico da nova aliança.
7- A conspiração dos chefes religiosos: uma preparação nas trevas
Enquanto os discípulos se dedicavam a estes preparativos marcados pela santidade, outros preparavam um acontecimento de natureza radicalmente oposta: a conspiração contra o Messias. Nessa mesma quinta-feira, os chefes religiosos agiam na sombra. Caifás, sumo sacerdote naquele ano (João 11.49-51; João 18.14), e os membros do , desejosos de concluir tudo antes da festa para evitar qualquer agitação popular (Mateus 26.3-5; Marcos 14.1-2), convocavam falsas testemunhas, solicitavam a colaboração dos guardas do Templo e ultimavam meticulosamente o plano de detenção.
O acordo com Judas Iscariotes estava agora selado por trinta moedas de prata, cumprindo assim a profecia de Zacarias (Zacarias 11.12-13; Mateus 26.14-16). A rapidez da sucessão dos acontecimentos revela uma organização minuciosa. Caifás pressionava Judas a agir sem demora para entregar Jesus, o Messias, num lugar isolado, longe dos olhares da multidão que ainda o aclamava poucos dias antes (Mateus 21.8-11).
8- O contraste teológico: comunhão e traição
Este contraste narrativo é impressionante e portador de um profundo significado teológico: de um lado, os discípulos preparam a refeição da comunhão e da nova aliança selada no sangue do Messias (Lucas 22.20; Hebreus 9.15); do outro, as autoridades religiosas preparam a traição e a morte do Filho de Deus (Atos 2.23).
Tudo converge para a mesma noite, certamente a mais carregada de sentido da história humana. A luz e as trevas enfrentam-se num drama cósmico em que, paradoxalmente, serão as trevas a servir de instrumento ao cumprimento do desígnio redentor de Deus (João 1.5; Colossenses 1.13-14).
9- A discrição profética do Messias
Impressiona-nos a precisão dos pormenores que Jesus, o Messias, confia aos seus discípulos. Transmite-lhes indicações que evocam um itinerário codificado, mas cada elemento continua marcado por um domínio divino soberano. Mateus regista estas palavras: «Ide à cidade, a casa de um certo homem» (Mateus 26.18), ou, segundo algumas versões: «a casa daquele que conheceis».
Esta discrição deliberada não é fruto do acaso. Os discípulos conheciam manifestamente o lugar, mas os evangelistas omitiram voluntariamente o seu nome por prudência, para proteger estes amigos de Jesus, o Messias, ainda vivos quando os Evangelhos foram escritos. Esta precaução redacional testemunha tanto o contexto de perseguição das primeiras comunidades cristãs como a solicitude pastoral dos autores inspirados (João 21.24-25).
10- O mistério da salvação: o Cordeiro que prepara a sua própria Páscoa
Assim, por detrás destes preparativos materiais, desenha-se o grande mistério da salvação. Enquanto tudo parece convergir inexoravelmente para a morte, Deus cumpre o seu desígnio perfeito, determinado antes da fundação do mundo (1 Pedro 1.19-20; Efésios 1.4-7). O Messias ocupa o centro desta orquestração divina: prepara ele próprio a sua Páscoa, sabendo plenamente que se tornará o Cordeiro imolado (João 1.29; Apocalipse 5.6-9).
Nada lhe escapa. Tudo está previsto, ordenado e querido por um amor infinito pelo mundo: «Porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (João 3.16-17). Jesus, o Messias, Cordeiro de Deus sem defeito nem mancha, oferece-se voluntariamente como sacrifício expiatório, cumprindo assim todas as prefigurações da antiga aliança (Hebreus 10.1-14).