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Preparação da Páscoa

Este artigo concentra-se na preparação da Páscoa por Jesus e seus discípulos. Explora os relatos bíblicos desse momento, a fusão das festividades da Páscoa e dos Pães Ázimos, e as adaptações práticas das práticas tradicionais diante da afluência de fiéis a Jerusalém.

35 min Páscoa Jesus preparação Evangelhos sacrifício 52 versículos 15 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus 26.17-19 (Bíblia Livre)

E no primeiro dia da festa dos pães sem fermento, os discípulos vieram a Jesus lhe perguntar: Onde queres que te preparemos para comer a Páscoa?

E ele respondeu: Ide à cidade a um tal, e dizei-lhe: “O Mestre diz: ‘Meu tempo está perto. Contigo celebrarei a Páscoa com os meus discípulos’”.

Os discípulos fizeram como Jesus havia lhes mandado, e prepararam a Páscoa.

Marcos
Marcos 14.12-16 (Bíblia Livre)

E o primeiro dia dos pães sem fermento, quando sacrificavam o cordeiro da Páscoa, seus discípulos lhe disseram: “Onde queres que vamos preparar para comerdes a Páscoa?”

E mandou dois de seus discípulos, e disse-lhes: “Ide à cidade, e um homem que leva um cântaro de água vos encontrará, a ele segui.

E onde quer que ele entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: Onde está o cômodo onde comerei Páscoa com meus discípulos?

E ele vos mostrará um grande salão, ornado e preparado; ali fazei os preparativos para nós.”

E seusdiscípulos saíram, e vieram à cidade, e acharam como havia lhes dito, e prepararam a Páscoa.

Lucas
Lucas 22.7-13 (Bíblia Livre)

E veio o dia dos pães sem fermento, em que se devia fazer o sacrifício da páscoa.

E Jesus mandou a Pedro, e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos.

E eles lhe disseram: Onde queres que a preparemos?

E ele lhes disse: Eis que, quando entrardes na cidade, um homem com um vaso de água vos encontrará; segui-o até a casa onde ele entrar.

E direis ao dono da casa: O Mestre te diz: Onde está o salão onde comerei a páscoa com meus discípulos?

Então ele vos mostrará um grande salão já arrumado; preparai-a ali.

E indo eles, acharam como lhes tinha dito; e prepararam a páscoa.

João
João 13.1-2 (Bíblia Livre)

E antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que sua hora já era vinda, para que deste mundo passasse para o Pai, havendo amado aos seus, que estavam no mundo, até o fim os amou.

E terminada a ceia, o diabo já havia metido no coração de Judas de Simão Iscariotes, que o traísse.

Detalhes técnicos

Ano 33

Local: A cidade de Jerusalém, a casa de Maria, mãe de João Marcos

Data: quinta-feira, 31 de março do ano 33

Método: Continuamos com Marcos

Nota sobre o método: Mateus e Lucas, e até João, confirmam as palavras de Marcos

Mapa de Jerusalém e região
Gráfico de barras de quinta-feira

O Messias Jesus e seus apóstolos preparam a celebração da festa da Páscoa.

Detalhes cronológicos, segundo as nossas conclusões:

_1 O abate dos cordeiros começa na quinta-feira e continua na sexta-feira. – anexo ANN027 : A última ceia da Páscoa.

_2 A busca e a preparação do local para a Páscoa ocorrem na quinta-feira à tarde. (Marcos 14.12-16, Mateus 26.17-19, Lucas 22.7-13).

Pode consultar a cronologia completa no estudo ANN026 : A hora da crucificação.

Comentário:

1- O primeiro dia dos Pães Ázimos: uma festa dupla

A expressão usada nos três Evangelhos sinópticos, «o primeiro dia dos pães ázimos», designa o início da grande festa da Páscoa, que também incluía a dos Pães Ázimos (Mateus 26.17-19; Marcos 14.12-16; Lucas 22.7-13). Naquela época, estas duas celebrações eram consideradas um único período litúrgico, comemorando simultaneamente a saída do Egito e a fidelidade do povo em purificar a sua casa de todo o fermento, símbolo do pecado e da corrupção moral (Exodo 12.1-20; Exodo 13.3-10). Esta fusão no calendário testemunha a unidade teológica entre a libertação histórica de Israel e o seu apelo à santidade ritual (Deuteronômio 16.1-8).

2- A imolação do cordeiro pascal e as adaptações práticas

Segundo a prescrição mosaica, o cordeiro pascal devia ser imolado «entre as duas tardes», isto é, entre o pôr do sol e o anoitecer (Exodo 12.6; Números 9.3). Contudo, no tempo de Jesus, a enorme afluência de peregrinos a Jerusalém tornava difícil cumprir esta prescrição num intervalo tão curto. O Templo, centro nevrálgico do culto israelita, tinha de acolher dezenas de milhares de adoradores que vinham oferecer o sacrifício prescrito (Deuteronômio 16.5-6), formando intermináveis filas nos átrios sagrados.

Por necessidade pastoral e logística, as autoridades religiosas tinham, por isso, adaptado a regra mosaica, distribuindo o abate dos cordeiros por dois dias consecutivos. Esta adaptação testemunha a tensão permanente entre a letra da Lei e as exigências práticas da sua aplicação em grande escala.

3- Quinta-feira, 13 de nisã: dia de preparação

É muito provável que a quinta-feira, 13 de nisã, tenha sido dedicada a preparativos minuciosos: seleção dos cordeiros sem defeito (Exodo 12.5), abate ritual sob supervisão sacerdotal, confeção segundo as prescrições (Exodo 12.8-9) e organização da refeição, para que, ao cair da noite, cada família pudesse celebrar dignamente a festa na sua casa. Algumas famílias tinham até de conservar a carne até ao dia seguinte para participar no Seder oficial na sexta-feira à noite.

O evangelista João alude explicitamente a este momento quando escreve: «Antes da festa da Páscoa…» (João 13.1), designando assim claramente o dia de preparação. Com o tempo, este dia preparatório foi também integrado na festa dos Pães Ázimos, tão profundamente enraizada estava a proximidade entre as duas celebrações na consciência religiosa judaica.

4- A purificação das casas: dimensão espiritual da preparação

Nos lares israelitas, a preparação da festa revestia-se de uma dimensão profundamente espiritual. Cada família devia assegurar-se de que não restava qualquer vestígio de fermento em casa, realizando assim um ato simbólico de purificação interior (Exodo 12.15; Exodo 13.7). Esta prática ritual prefigurava a disposição de um coração pronto a apresentar-se diante de Deus com integridade e santidade.

O apóstolo Paulo retomará este simbolismo com uma profundidade cristológica notável: «Purificai-vos do fermento velho, para que sejais uma massa nova, uma vez que sois ázimos; pois Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado» (1 Coríntios 5.7-8). Assim, à aproximação de 14 de nisã, tudo devia estar pronto: as casas purificadas de todo o fermento, o cordeiro preparado segundo os ritos e a mesa posta para a refeição sagrada.

5- A missão confiada a Pedro e João

Pedro e João receberam então uma missão particular do Mestre: ir preparar a refeição pascal (Lucas 22.8). Com base em instruções que parecem misteriosas, mas que se revelam de uma precisão notável, deviam encontrar um homem a transportar uma bilha de água e segui-lo até à casa onde tudo já estaria preparado (Marcos 14.13-15; Lucas 22.10-12).

Este pormenor tem um significado particular: transportar água fazia habitualmente parte das tarefas femininas na sociedade palestiniana do século I. Um homem a realizar esta tarefa destacava-se, por isso, de imediato na multidão de peregrinos. Esta indicação precisa atesta a presciência profética do Senhor e o seu domínio soberano dos acontecimentos futuros (Isaías 46.10).

6- A sala de cima: um lugar providencial

Segundo a tradição eclesial mais solidamente estabelecida, esta casa pertencia provavelmente a Maria, mãe de João Marcos, discípulo da primeira comunidade cristã (Atos 12.12). O anfitrião, homem fiel e discreto, já tinha reservado a sala de cima (anagaion em grego, designando uma divisão no piso superior) e preparado tudo o que era necessário para a refeição pascal (Marcos 14.15).

Este lugar tornar-se-ia um importante símbolo eclesial: o da última refeição, da instituição da Santa Ceia (Lucas 22.19-20; 1 Coríntios 11.23-26) e, posteriormente, da reunião dos discípulos no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja nascente (Atos 1.13; Atos 2.1-4). A sala de cima constitui assim o berço geográfico da nova aliança.

7- A conspiração dos chefes religiosos: uma preparação nas trevas

Enquanto os discípulos se dedicavam a estes preparativos marcados pela santidade, outros preparavam um acontecimento de natureza radicalmente oposta: a conspiração contra o Messias. Nessa mesma quinta-feira, os chefes religiosos agiam na sombra. Caifás, sumo sacerdote naquele ano (João 11.49-51; João 18.14), e os membros do , desejosos de concluir tudo antes da festa para evitar qualquer agitação popular (Mateus 26.3-5; Marcos 14.1-2), convocavam falsas testemunhas, solicitavam a colaboração dos guardas do Templo e ultimavam meticulosamente o plano de detenção.

O acordo com Judas Iscariotes estava agora selado por trinta moedas de prata, cumprindo assim a profecia de Zacarias (Zacarias 11.12-13; Mateus 26.14-16). A rapidez da sucessão dos acontecimentos revela uma organização minuciosa. Caifás pressionava Judas a agir sem demora para entregar Jesus, o Messias, num lugar isolado, longe dos olhares da multidão que ainda o aclamava poucos dias antes (Mateus 21.8-11).

8- O contraste teológico: comunhão e traição

Este contraste narrativo é impressionante e portador de um profundo significado teológico: de um lado, os discípulos preparam a refeição da comunhão e da nova aliança selada no sangue do Messias (Lucas 22.20; Hebreus 9.15); do outro, as autoridades religiosas preparam a traição e a morte do Filho de Deus (Atos 2.23).

Tudo converge para a mesma noite, certamente a mais carregada de sentido da história humana. A luz e as trevas enfrentam-se num drama cósmico em que, paradoxalmente, serão as trevas a servir de instrumento ao cumprimento do desígnio redentor de Deus (João 1.5; Colossenses 1.13-14).

9- A discrição profética do Messias

Impressiona-nos a precisão dos pormenores que Jesus, o Messias, confia aos seus discípulos. Transmite-lhes indicações que evocam um itinerário codificado, mas cada elemento continua marcado por um domínio divino soberano. Mateus regista estas palavras: «Ide à cidade, a casa de um certo homem» (Mateus 26.18), ou, segundo algumas versões: «a casa daquele que conheceis».

Esta discrição deliberada não é fruto do acaso. Os discípulos conheciam manifestamente o lugar, mas os evangelistas omitiram voluntariamente o seu nome por prudência, para proteger estes amigos de Jesus, o Messias, ainda vivos quando os Evangelhos foram escritos. Esta precaução redacional testemunha tanto o contexto de perseguição das primeiras comunidades cristãs como a solicitude pastoral dos autores inspirados (João 21.24-25).

10- O mistério da salvação: o Cordeiro que prepara a sua própria Páscoa

Assim, por detrás destes preparativos materiais, desenha-se o grande mistério da salvação. Enquanto tudo parece convergir inexoravelmente para a morte, Deus cumpre o seu desígnio perfeito, determinado antes da fundação do mundo (1 Pedro 1.19-20; Efésios 1.4-7). O Messias ocupa o centro desta orquestração divina: prepara ele próprio a sua Páscoa, sabendo plenamente que se tornará o Cordeiro imolado (João 1.29; Apocalipse 5.6-9).

Nada lhe escapa. Tudo está previsto, ordenado e querido por um amor infinito pelo mundo: «Porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (João 3.16-17). Jesus, o Messias, Cordeiro de Deus sem defeito nem mancha, oferece-se voluntariamente como sacrifício expiatório, cumprindo assim todas as prefigurações da antiga aliança (Hebreus 10.1-14).