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Judas Iscariotes, o traidor, é identificado

Este artigo explora a traição de Judas Iscariotes durante a última ceia pascal com Jesus. Analisando os relatos dos Evangelhos, destaca as reações dos discípulos e as implicações teológicas desse acontecimento crucial em Jerusalém.

33 min Judas traição Evangelhos Jesus Última Ceia 50 versículos 10 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus 26.21-25 (Bíblia Livre)

E enquanto comiam, disse: Em verdade vos digo que um de vós me trairá.

Eles ficaram muito tristes, e cada um deles começou a lhe perguntar: Por acaso sou eu, Senhor?

E ele respondeu: O que mete comigo a mão no prato, esse me trairá.

De fato, o Filho do homem vai assim como dele está escrito; mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria a tal homem se não houvesse nascido.

E Judas, o que o traía, perguntou: Por acaso sou eu, Rabi? Jesus lhe disse: Tu o disseste.

Marcos
Marcos 14.18-21 (Bíblia Livre)

E quando se sentaram à mesa, e comeram, Jesus disse: “Em verdade vos digo, que um de vós, que está comendo comigo, me trairá.”

E eles começaram a se entristecer, e a lhe dizer um após outro: “Por acaso sou eu?” E outro: “Por acaso sou eu?”

Porém ele lhes respondeu: “É um dos doze, o que está molhando a mão comigo no prato.

Em verdade o Filho do homem vai, como está escrito sobre ele; mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído; bom lhe fosse ao tal homem não haver nascido.”

Lucas
Lucas 22.21-23 (Bíblia Livre)

Porém eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.

E realmente o Filho do homem vai conforme o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!

E começaram a perguntar entre si, qual deles seria o que faria isto.

João
João 13.2-3 (Bíblia Livre)

E terminada a ceia, o diabo já havia metido no coração de Judas de Simão Iscariotes, que o traísse.

Sabendo Jesus que o Pai já tinha lhe dado todas as coisas nas mãos, e que ele era vindo de Deus, e para Deus ele iria,

Detalhes técnicos

Ano 33

Local: A cidade de Jerusalém, a casa de Maria, mãe de João Marcos

Data: quinta-feira, 31 de março do ano 33

Método: Continuamos com Marcos

Nota sobre o método: Mateus e Lucas confirmam as palavras de Marcos; João também dá uma indicação

Mapa de Jerusalém e região
Gráfico de barras de quinta-feira

O Messias Jesus anuncia a traição de um dos apóstolos presentes sem dizer o seu nome.

Detalhes cronológicos, segundo as nossas conclusões:

_3 A casa é, em nossa opinião, a de Maria, mãe de João, chamado Marcos. Atos 12.12.

_4 A ceia da Páscoa começa na quinta-feira à noite, depois das 18 h. Para os judeus, já é sexta-feira (Marcos 14.17, Mateus 26.20, Lucas 22.14-18). Portanto, não se trata do Seder oficial, que será celebrado na noite de sexta-feira João 18.28.

Você pode consultar toda essa cronologia no estudo ANN026 : A hora da crucificação.

Comentário:

1- O anúncio solene da traição

Durante a ceia pascal, o Messias Jesus pronuncia uma palavra de gravidade excepcional, rompendo de repente a atmosfera de comunhão fraterna:

Mateus 26.21 (Bíblia Livre) :
E enquanto comiam, disse: Em verdade vos digo que um de vós me trairá.

Essa declaração profética mergulha os discípulos no espanto e no desamparo. Marcos relata a reação imediata deles: “Eles começaram a entristecer-se e a dizer-lhe, um após outro: Porventura sou eu?” (Marcos 14.18-19). Essa pergunta, repetida por cada um dos Doze, revela ao mesmo tempo o apego sincero deles ao Mestre e a incapacidade de identificar o traidor entre eles. O silêncio perplexo deles, em particular o de Simão Pedro — tão pronto, porém, a falar em outras circunstâncias (Mateus 16.16; Mateus 16.22) —, mostra que ainda não percebem o alcance dramático dessa revelação.

2- O contraste entre intimidade e traição

O evangelista Lucas traz uma precisão que acentua o caráter comovente da cena:

Lucas 22.21 (Bíblia Livre) :
Porém eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.

Essa indicação — “a mão do que me trai está comigo à mesa” — sublinha o contraste impressionante entre a intimidade sagrada da ceia pascal e a traição iminente. Na cultura oriental antiga, partilhar o pão com alguém estabelecia um laço de confiança e de proteção mútua (Salmos 41.10). A traição de um convidado constituía, portanto, uma violação particularmente odiosa da hospitalidade e da aliança fraterna. O salmista tinha anunciado profeticamente essa ferida: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Salmos 41.10; João 13.18).

3- Judas deixa a mesa: a entrada nas trevas

Ao contrário dos outros discípulos, que permanecem na incompreensão, Judas Iscariotes capta perfeitamente o sentido das palavras do Mestre. O evangelista João descreve o momento decisivo com uma sobriedade dramática: depois de receber das mãos de Jesus o pedaço de pão molhado, “Satanás entrou nele”, e o Senhor lhe disse: “O que você vai fazer, faça-o depressa” (João 13.26-27).

Judas, perturbado e desmascarado, deixa então a mesa antes do fim da refeição para realizar o que já havia concebido em seu coração corrompido pela avareza (João 12.4-6). João registra com uma concisão carregada de sentido: “Tendo ele tomado o pedaço de pão, saiu logo. Era noite” (João 13.30). Essa indicação de tempo vai além da simples constatação cronológica: ela assinala a entrada de Judas nas trevas espirituais, ele que se afasta daquele que é a Luz do mundo (João 8.12; João 12.35-36).

4- A incompreensão dos discípulos e o desígnio providencial

Se Simão Pedro tivesse compreendido naquele instante a gravidade do gesto de Judas e a iminência da prisão, seu temperamento ardente e impetuoso o teria levado, sem dúvida, a intervir com violência, como fará algumas horas depois no jardim do Getsêmani, ferindo Malco, servo do sumo sacerdote (João 18.10-11; Mateus 26.51-54). Mas o Messias Jesus, senhor soberano dos acontecimentos, não permite uma intervenção tão prematura: a hora da traição devia seguir o seu curso segundo o desígnio divino estabelecido desde toda a eternidade (Atos 2.23; Atos 4.27-28).

Os discípulos, apesar das advertências repetidas do Messias sobre a sua paixão iminente (Mateus 16.21; Mateus 17.22-23; Mateus 20.17-19), continuam incapazes de imaginar um desfecho trágico. A esperança deles num reino messiânico visível e glorioso, conforme às expectativas populares da época, os impede de aceitar a perspectiva da cruz e da morte ignominiosa do seu Mestre (Lucas 18.31-34; Lucas 24.21).

5- A cegueira espiritual dos Doze

Essa incompreensão dos discípulos não decorre de falta de inteligência, mas de uma cegueira espiritual temporária, permitida por Deus em sua sabedoria insondável. Lucas declara explicitamente: “Mas eles nada disso compreenderam; essa palavra lhes era encoberta, e não entendiam o que se lhes dizia” (Lucas 18.34). As categorias mentais dos discípulos, moldadas pela expectativa de um Messias político e triunfante, não podiam acolher a ideia de um Messias sofredor, servo do entregue à morte pelos pecados do povo (Isaías 53.1-12).

Até os dois discípulos de Emaús, depois da crucificação, confessarão a sua desilusão: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel” (Lucas 24.21). Essa esperança de um livramento nacional imediato velava a seus olhos a necessidade do sacrifício redentor.

6- A compreensão pós-pascal: a iluminação pelo Espírito

Somente depois da crucificação e da ressurreição os discípulos captarão plenamente o sentido dessas palavras proferidas na última ceia. João anota com honestidade que, até aquele momento, “ainda não haviam entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dentre os mortos” (João 20.9). A ressurreição ao terceiro dia foi o gatilho hermenêutico que abriu a inteligência deles para as Escrituras (Lucas 24.45).

O próprio Ressuscitado teve de lhes explicar, começando por Moisés e por todos os profetas, o que dizia respeito a ele em todas as Escrituras (Lucas 24.27; Lucas 24.44-47). Compreenderam então que a morte do Messias Jesus não era um fracasso trágico, mas a passagem necessária para a redenção da humanidade, o cumprimento da vontade de amor do Pai: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16-17).

7- O papel do Espírito Santo na iluminação dos discípulos

O Messias Jesus havia, aliás, anunciado essa iluminação futura pela obra do Paráclito: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo quanto eu vos tenho dito” (João 14.26). Somente depois de Pentecostes, quando o Espírito desceu sobre os discípulos reunidos no cenáculo (Atos 2.1-4), Pedro pôde proclamar com segurança o mistério da cruz e da ressurreição diante das multidões de Jerusalém (Atos 2.22-36).

A incompreensão dos discípulos durante a Paixão faz assim parte integrante do plano divino: ela põe em evidência a necessidade da revelação pelo Espírito e sublinha que a fé verdadeira não procede da sabedoria humana, mas da iluminação divina (1 Coríntios 2.10-14; Mateus 16.17).

8- A gravidade da última ceia: um momento de tensão escatológica

Assim, a cena da última ceia não tem de modo algum o caráter de uma festa alegre ou de uma celebração despreocupada. É um momento de intensa tensão escatológica, em que a alegria pascal tradicional se vela sob o peso do anúncio profético. O Messias Jesus, plenamente consciente do que o espera (João 13.1; João 18.4), conduz essa ceia com domínio soberano, enquanto o plano da salvação se cumpre no silêncio perturbado e na incompreensão dos seus discípulos mais próximos.

Essa tensão dramática entre a consciência perfeita do Messias e a cegueira dos seus discípulos confere ao relato uma profundidade teológica notável. O Filho de Deus caminha para a cruz de olhos abertos, livremente e por amor (João 10.17-18; Gálatas 2.20), enquanto aqueles que ele ama ainda não percebem a glória que brotará dessa aparente derrota.

9- Conclusão: o silêncio portador do mistério redentor

A última ceia permanece assim como um dos pontos culminantes dramáticos dos relatos da Paixão. No contraste entre o anúncio claro do Messias e a incompreensão persistente dos discípulos revela-se o mistério da redenção: o que a sabedoria humana não podia conceber, Deus o realizou pela aparente loucura da cruz (1 Coríntios 1.18-25).

O silêncio dos discípulos, a incapacidade de perceber a iminência do drama, a sua pergunta angustiada — “Sou eu, Senhor?” — constituem outros tantos testemunhos da sua frágil humanidade, mas também da pedagogia divina que preparava o coração deles para receber, depois da Páscoa, a plena : “Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1.26-27).