ANN081

O cumprimento das profecias

O artigo examina como as profecias do Antigo Testamento se cumprem na vida de Jesus, identificando 24 pontos marcados por acontecimentos fundamentais. Ao relacionar textos proféticos com os Evangelhos, o autor explora o cumprimento e o alcance messiânico oculto dos escritos sagrados.

52 min profecias Messias Jesus Evangelhos Antigo Testamento 42 versículos 15 livros

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Introdução

No capítulo intitulado «A profecia», identificámos doze pontos específicos na primeira parte das nossas Bíblias, o Antigo Testamento, que se referem indubitavelmente ao Messias.

Além disso, identificámos outros doze pontos que, embora inicialmente não parecessem ligados ao Messias, foram esclarecidos por diversos acontecimentos da vida de Jesus. Estes elementos constituem profecias porque descrevem o Messias vários séculos antes da sua chegada ao mundo.

Algumas destas profecias tiveram primeiro uma realização no contexto político da época em que foram anunciadas e, depois, uma segunda interpretação com a vinda do Messias. Parece claro que os autores destes textos não tinham plena consciência do alcance messiânico dos seus escritos.

Neste estudo, examinaremos estes textos e compará-los-emos com as informações dos Evangelhos acerca de Jesus. Pretendemos determinar se os contemporâneos de Jesus podiam relacionar as profecias do Antigo Testamento com os pormenores específicos da vida de Jesus, o Messias.

I. Recapitulação das 24 profecias

Comparamos os 24 pontos proféticos definidos no capítulo «A profecia» com os acontecimentos relatados nos Evangelhos. O nosso objetivo é avaliar a coerência e a precisão entre estas profecias e os factos históricos relatados.

Basear-nos-emos apenas nas informações disponíveis, sem acrescentar interpretações pessoais. Observaremos que os autores dos Evangelhos, nomeadamente Mateus, já estabeleceram algumas destas relações.

Os primeiros doze pontos dizem respeito especificamente ao Messias:

1-O anúncio de um Messias futuro

2-A sua filiação divina

3-A vinda de um mensageiro precursor

4-O seu nascimento em Belém

5-Os seus títulos e papéis messiânicos

6-A realização de milagres messiânicos

7-A sua entrada messiânica em Jerusalém

8-A sua experiência de sofrimento e rejeição

9-A data profetizada da sua morte

10-A sua sepultura num túmulo de rico

11-O seu plano de redenção e as suas bênçãos universais

12-A sua ressurreição anunciada

A segunda lista de doze pontos é associada ao Messias devido a acontecimentos específicos que lhe dizem respeito:

1-O seu nascimento virginal

2-O seu estabelecimento em Nazaré

3-O massacre dos inocentes

4-O seu regresso do Egito

5-A sua traição

6-O preço desta traição

7-O uso do dinheiro da traição para comprar o campo do oleiro

8-A sua ingestão de vinagre

9-As mãos e os pés trespassados, sem ossos quebrados

10-A escuridão em pleno dia

11-A lua tingida de sangue

12-A sua ascensão ao céu

A nossa tarefa será estabelecer paralelos entre os escritos dos profetas e os relatos dos Evangelhos, apoiando-nos sobretudo na abordagem de Mateus, que já realizou grande parte desta análise. Procuraremos identificar as fontes das relações que estabeleceu.

II. Primeira parte

Retomaremos os primeiros doze pontos que, a nosso ver, dizem respeito diretamente à pessoa de Jesus, o Messias.

Ponto 1: Um Messias anunciado nos textos judaicos

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

A designação «Deus Poderoso»:

O profeta Isaías qualifica o Messias como «Deus Poderoso», e o apóstolo João, no seu prólogo, esclarece a natureza divina de Jesus.

João 1.1-5 descreve a Palavra como existente desde o princípio, com Deus e sendo ela própria Deus. Tudo foi criado por ela, e nela reside a vida, fonte de luz para os seres humanos.

Em João 1.14, esta Palavra faz-se carne, habita entre nós, cheia de graça e de verdade, e revela-nos a glória do Filho único do Pai.

João começa o seu evangelho afirmando a divindade de Jesus, testemunhando que é simultaneamente Filho de Deus e o Messias predito pelos profetas. Salienta que compreender o Messias exige reconhecer a encarnação de Deus como homem.

Assim, Jesus, o Messias, é apresentado não apenas como um grande homem, mas como o próprio Deus.

Ponto 2: Será Filho de Deus

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

No batismo de Jesus ocorreram acontecimentos sobrenaturais. João Batista, testemunha desta cena, relata uma manifestação notável: uma voz celeste proclamava que Jesus era o Filho de Deus.

Esta declaração poderia ser entendida como blasfema no contexto judaico da época, em que a ideia de Deus ter um filho contrariava a compreensão tradicional da sua natureza.

Contudo, João relata fielmente o que observou e ouviu, apesar do desafio que isso representa para a sua própria interpretação dos acontecimentos.

Ponto 3: Um mensageiro anunciará a sua vinda

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Jesus, o Messias, afirmou que o mensageiro predito para o preceder era João Batista. Esta declaração encontrou eco nos judeus do seu tempo, que esperavam a chegada de dois messias.

Segundo esta crença, o primeiro Messias devia ser de natureza sacerdotal, papel que se associa agora a João Batista. O segundo era concebido como rei, figura que Jesus veio encarnar.

Esta distinção entre um Messias sacerdotal e um Messias régio era comum na expectativa messiânica judaica da época.

Ponto 4: Nascerá em Belém

a) O texto

O profeta Miqueias, contemporâneo de Isaías e Oseias, exerceu o seu ministério no século VIII a.C., durante os reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Este período, cerca de cento e cinquenta anos antes da deportação babilónica, foi marcado por ameaças crescentes a Judá, com a ascensão dos babilónios.

Nas suas profecias, Miqueias vai além dos avisos imediatos aos dirigentes da época e projeta-se num futuro distante. Prediz um tempo de restauração e evoca o nascimento de um rei em Belém, a aldeia natal de David.

Miqueias salienta também a antiguidade da origem deste futuro rei, sugerindo uma linhagem que remonta a um passado longínquo. Estes anúncios descrevem acontecimentos que ocorrerão muito depois da sua própria época.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Estas palavras do profeta Miqueias foram bem compreendidas pelos religiosos judeus. Quando o rei Herodes, o Grande, perguntou a estes sábios onde nasceria esse rei, responderam sem hesitar: Belém.

Os evangelistas Mateus e João confirmam explicitamente que Jesus nasceu em Belém da Judeia, corroborando a profecia de Miqueias sobre o local de nascimento do Messias. José e Maria, tal como outros judeus da época, provavelmente conheciam esta profecia.

O anúncio de Miqueias de que a origem deste rei remonta a um passado distante pode ser interpretado de duas formas.

Por um lado, pode indicar que o Messias provém de uma linhagem real, como sucessor da dinastia de David.

Por outro lado, como evoca o apóstolo João no prólogo, esta origem longínqua pode significar a existência do Messias antes da própria criação do mundo, salientando a sua natureza divina e eterna.

Ponto 5: Terá o título de rei

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Este salmo, de autor desconhecido, era inicialmente um aviso às nações, exortando-as a não se rebelarem contra o rei recém-estabelecido.

Contudo, com o tempo, foi progressivamente associado na memória coletiva ao futuro rei messiânico tão esperado, o Shiloh ou Messias.

Expressões como «Rei dos Judeus» e «Filho de David» são usadas frequentemente nos Evangelhos para designar Jesus, confirmando a sua identidade messiânica segundo a compreensão da época.

Estes termos refletem o reconhecimento de Jesus como o Messias prometido, figura central na expectativa escatológica judaica.

Ponto 6: Realizará milagres

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

João Batista conhecia a profecia de Isaías 34.4-5. Ao referir-se a este texto, Jesus estabelece uma ligação direta entre a sua missão e os escritos de Isaías, proclamando-se abertamente como o Messias prometido.

Esta afirmação era particularmente significativa, pois os judeus da época conheciam bem os escritos de Isaías. Os líderes religiosos também o reconheceram, como testemunha João 3.2, onde se diz que ninguém pode realizar tais milagres sem o auxílio de Deus.

Este reconhecimento do papel messiânico de Jesus assentava na realização de milagres, considerados prova da sua ligação divina.

Ponto 7: Entrará em Jerusalém montado num jumentinho

a) O texto

c) A realidade histórica dos Evangelhos

Esta cena, em que Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, é relatada nos quatro Evangelhos: Mateus 21.1-5, Marcos 11.1-10, Lucas 19.28-44 e João 12.12-14.

Concentramo-nos sobretudo no relato de João, pois salienta um ponto crucial: os discípulos não compreendiam o que se passava diante dos seus olhos.

Naquele momento, não conseguiram relacionar este acontecimento com a profecia de Zacarias 9.9, que provavelmente conheciam. Isto indica que tinham dificuldade em associar os atos de Jesus às profecias do Antigo Testamento.

Só mais tarde, como Mateus menciona no seu Evangelho, os discípulos começaram a perceber e a compreender estas correspondências entre os acontecimentos da vida de Jesus e os escritos proféticos.

Ponto 8: Será martirizado

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Os quatro evangelistas abordam o episódio da crucificação, mas é Lucas quem fornece mais pormenores.

Para além do sofrimento extremo da crucificação, observamos que a multidão não manifesta compaixão, preferindo troçar de Jesus. Assim, o texto de Isaías cumpre-se à letra.

Esta cena cruel, descrita por Lucas, ilustra de forma pungente o cumprimento das profecias do Antigo Testamento sobre os sofrimentos do Messias.

Ponto 9: Deverá morrer durante a festa da Páscoa do ano 33

a) O texto

Esclarecemos e interpretamos este texto complexo no capítulo O profeta Daniel , bem como nos anexos ANN005: Cálculo das datas relativas à vida de Jesus, o Messias, ANN006: A data exata do decreto e ANN067: As teorias de Anderson e Denney.

A partir destas análises, concluímos que Jesus, o Messias, foi crucificado a 1 de abril do ano 33. Estes documentos apresentam uma análise pormenorizada e aprofundada dos cálculos e hipóteses que sustentam esta data específica.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Constatamos que, graças às profecias registadas por Daniel, é possível deduzir com precisão a data da crucificação de Jesus, o Messias.

Esta conclusão notável só se torna evidente após um estudo minucioso das profecias. O resultado é surpreendente e sugere a existência de uma Autoridade Superior que coordena os acontecimentos históricos para que o seu plano preestabelecido se cumpra com exatidão.

Jesus, o Messias, morreu no tempo determinado por Deus, como indicam Romanos 5.6 e Daniel 8.19.

Ponto 10: Será colocado no túmulo destinado a uma pessoa rica

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Os quatro autores dos Evangelhos mencionam a sepultura de Jesus num túmulo (ver Mateus 27.59, Marcos 15.47, Lucas 23.50 e João 19.38.

Habitualmente, só os ricos eram sepultados em túmulos, enquanto os corpos dos menos abastados eram muitas vezes enterrados em valas comuns. Assim, a realização desta previsão específica de Isaías parecia pouco provável.

Contudo, a intervenção de José de Arimateia, que colocou o corpo de Jesus no seu próprio túmulo, conduziu ao cumprimento notável desta profecia. É pouco provável que José tivesse em mente o texto de Isaías 53.9 ao tomar esta decisão. Ainda assim, o seu ato involuntário contribuiu para cumprir a profecia, tornando o seu nome memorável até hoje.

Ponto 11: Voltará à vida ao terceiro dia

a) O texto

Oseias 6.2 não indica explicitamente a ressurreição do Messias, mas a coincidência com a ressurreição de Jesus ao terceiro dia é notável.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Os quatro Evangelhos descrevem de forma notável o acontecimento da ressurreição de Jesus, o Messias (ver Mateus 28.1, Marcos 16.1, Lucas 24.1 e João 20.1.

Apesar dos ensinamentos explícitos do Mestre sobre este assunto, os discípulos não esperavam tal milagre. Veremos que tiveram dificuldade em aceitar esta realidade, embora as profecias a tivessem anunciado e apesar dos avisos diretos do próprio Jesus.

Ponto 12: Virá resgatar a humanidade

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

A morte de Jesus, o Messias, distingue-se de todas as outras, pois oferece ao mundo uma possibilidade de redenção. É por isso que se fala por vezes do «sacrifício da cruz».

Este conceito insere-se na tradição judaica, em que a morte de uma vítima inocente serve de expiação pelos pecados humanos. Contudo, a grande diferença na morte de Jesus, o Messias, reside no facto de o seu sacrifício ser considerado definitivo e universal, cobrindo as faltas de todos os que o reconhecem.

III. Segunda parte

Abordamos agora profecias que já tiveram uma realização específica no passado e que, por extensão, dizem também respeito ao Messias.

Compreendemo-las relacionando-as com a história de Jesus, o Messias. Sem estes acontecimentos históricos, teriam permanecido desconhecidas ou mal interpretadas.

Ponto 13: Um filho nascido de uma virgem

a) O texto

Este texto provém de uma declaração do profeta Isaías a Acaz, rei de Judá. O seu objetivo primeiro é avisar o soberano rebelde. A profecia não teria sentido sem uma realização concreta que interpelasse Acaz.

Isaías anuncia que uma jovem virgem dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel, que significa «Deus connosco». Este nascimento é inteiramente natural, ocorrendo no contexto de um casamento, com a intervenção de um homem.

O sinal dado a Acaz reside no nome da criança e no momento do seu nascimento. Cerca de três anos depois desta profecia, em 732 a.C., a aliança entre Acaz, rei de Judá, e Rezim, rei da Síria, desmorona-se quando o imperador assírio Tiglate-Pileser III destrói Damasco.

Acaz terá então de pagar um pesado tributo ao império assírio. O nascimento desta criança e os pormenores do versículo 16 concretizam-se literalmente nessa época. Acaz provavelmente conhecia a mulher e a criança e compreendeu o sinal anunciado por Isaías.

Contudo, não podia prever o que aconteceria setecentos e trinta anos depois. Observamos frequentemente este princípio nas profecias: uma primeira realização na época do anúncio e outra no futuro.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Estes versículos do livro de Isaías adquirem um significado particular com o nascimento de Jesus. O apóstolo Mateus estabelece uma ligação entre esta profecia e a conceção excecional do Menino Jesus.

Importa recordar que Mateus se dirigia a um público judeu familiarizado com os escritos de Isaías. Qualquer interpretação errada ou tendenciosa teria sido facilmente identificada e criticada pelos seus contemporâneos.

Concordamos com as conclusões de Mateus, que interpreta o texto de Isaías como profecia do nascimento excecional do Menino Jesus. Neste caso, observamos uma primeira realização na época de Isaías, seguida de um segundo cumprimento cerca de setecentos e trinta anos depois.

Torna-se evidente que esta profecia não podia ser plenamente compreendida sem as circunstâncias do nascimento de Jesus vividas por Maria. Assim, a história revelou o cumprimento desta palavra profética.

Ponto 14: Habitará em Nazaré

a) O texto

Embora não encontremos no Antigo Testamento um texto específico que sustente a afirmação de Mateus sobre Nazaré, ele menciona explicitamente «os profetas». Parece, pois, que esta ideia resulta da interpretação de várias passagens do Antigo Testamento.

Une hypothèse est que Matthieu ait fait le lien entre le mépris envers Nazareth, un village dont le développement dépendait directement de la ville romaine de Sépphoris toute proche, donc associé à l'occupant , et le rejet que le Messie Jésus allait subir.

Esta perspetiva pode aproximar-se dos textos de Isaías sobre o desprezo e o sofrimento do servo de Deus. Como lugar desprezado, Nazaré torna-se assim símbolo da rejeição que Jesus, natural dessa aldeia, iria experimentar.

Com esta frase incisiva, Natanael resume claramente a situação da época.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Mateus afirma sem hesitar que, de acordo com as profecias, Jesus devia residir em Nazaré. Embora seja difícil encontrar fontes proféticas diretas para sustentar a afirmação, a história bíblica confirma que, após o regresso do Egito, a família de Jesus, inicialmente desejosa de se estabelecer em Belém, acabou por regressar à aldeia natal, Nazaré.

Esta decisão é influenciada pela revelação de um anjo a José. A alusão de Mateus a Nazaré, embora não assente numa profecia específica, é interpretada num contexto mais amplo em que procura ligar a vida de Jesus aos escritos proféticos.

Parece-nos evidente que Mateus não cometeu um erro ao citar esta passagem, tendo antes escolhido uma interpretação teológica para salientar o significado da vida de Jesus em relação às Escrituras hebraicas.

Ponto 15: Haverá um massacre de crianças por ocasião do seu nascimento

a) O texto

Neste texto, Jeremias alude a um acontecimento trágico e doloroso. Menciona Ramá, cerca de oito quilómetros a norte de Jerusalém, enquanto Belém fica cerca de oito quilómetros a sul. Raquel, considerada mãe ancestral de José e Benjamim, representa simbolicamente as mães de Israel. Viveu quase dez séculos antes do acontecimento referido por Jeremias.

A referência de Jeremias a Raquel a chorar os filhos parece uma para exprimir a dor e a desolação das mães durante a deportação de 722 a.C., quando o reino do norte foi conquistado pelos assírios e muitos israelitas foram deportados. Essa deportação causou certamente sofrimentos indizíveis, incluindo a morte de crianças, o que poderá explicar Raquel a chorar.

É, pois, provável que Jeremias se refira, através de Raquel, à dor coletiva e histórica de Israel, simbolizada pelo luto de uma mãe que perdeu os filhos. Esta imagem pungente ilustra a profundidade da aflição nacional após as tragédias e perturbações vividas pelo povo.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Mateus estabelece uma ligação explícita entre a profecia de Jeremias 31.15 e o massacre das crianças de Belém e arredores, tal como o relata no seu evangelho.

Mateus parece interpretar a dor de Raquel, que chora os filhos perdidos na deportação, como uma prefiguração simbólica do desespero das mães de Belém perante o massacre ordenado por Herodes.

Esta interpretação de Mateus reflete uma abordagem tipológica da Escritura, em que um acontecimento do Antigo Testamento é visto como prefiguração ou símbolo de um acontecimento do Novo. Neste caso, o sofrimento de Raquel antecipa a dor das mães de Belém. Isto mostra como Mateus liga os escritos dos profetas do Antigo Testamento aos acontecimentos da vida de Jesus, salientando a continuidade e o cumprimento das profecias bíblicas na sua pessoa.

É, portanto, claro que Mateus não usa literalmente o texto de Jeremias, mas como forma de ligar simbolicamente os sofrimentos do passado aos do tempo de Jesus.

A interpretação de Mateus da profecia de Jeremias em relação ao massacre das crianças de Belém exemplifica a abordagem tipológica dos autores do Novo Testamento. Este método vê acontecimentos do Antigo Testamento como prefigurações simbólicas de acontecimentos posteriores do Novo Testamento.

No seu evangelho, Mateus relaciona explicitamente o massacre dos meninos judeus por Herodes com a profecia de Jeremias 31.15, em que Raquel chora os filhos perdidos. Embora a passagem original de Jeremias não preveja especificamente esta tragédia sob Herodes, Mateus interpreta-a como realização simbólica da profecia.

Na perspetiva de Mateus, a dor de Raquel na profecia de Jeremias ilustra antecipadamente o luto das mães de Belém. Contudo, importa notar que esta interpretação tipológica é própria de Mateus e não decorre diretamente do texto de Jeremias.

Assim, reconhecendo a validade desta interpretação no contexto do Novo Testamento, é também necessário admitir que Jeremias não indicava explicitamente tal acontecimento futuro.

Ponto 16: Deverá regressar da terra do Egito

a) O texto

Mateus cita o profeta Oseias, que nestas linhas recorda a grande libertação dos hebreus com Moisés. Retomará este tema várias vezes no livro: Oseias 12.10, Oseias 12.14 e Oseias 13.4.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Mateus retoma, portanto, esta observação do profeta para a aplicar a Jesus, o Messias, que efetivamente regressará da terra do Egito.

Só a história de Jesus, o Messias, nos permite ligar as palavras de Oseias 11.1 sobre «chamar o meu filho do Egito» ao regresso da família de Jesus após o exílio. Mateus não hesita em evocar esta passagem no seu Evangelho, considerando-a prova adicional da messianidade de Jesus.

Parece pouco provável que José e Maria tenham interpretado o acontecimento como Mateus o faz posteriormente. Contudo, ele traça um paralelo entre a libertação do povo hebreu, que Deus fez sair do Egito, e a libertação trazida por Jesus, o Messias, fonte de bênção. Esta interpretação mostra como acontecimentos passados podem adquirir novos significados à luz de acontecimentos mais recentes.

Ponto 17: Será traído por alguém próximo

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

O paralelo entre o salmo de David e a traição de Judas Iscariotes parece evidente. David refere-se a acontecimentos específicos da própria vida, mas, curiosamente, as mesmas palavras parecem ecoar na traição de Judas, alguém próximo de Jesus, o Messias.

Esta ligação só se torna clara conhecendo os acontecimentos que conduziram à prisão de Jesus. Sem esta compreensão contextual, o alcance profético do texto de David permaneceria oculto.

Ponto 18: O preço desta traição será de trinta moedas de prata

a) O texto

O profeta Zacarias precisa até a quantia atribuída à traição. Corresponde ao preço de um escravo.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Mateus relata a traição de Judas Iscariotes e especifica a quantia que o ofereceu por ela.

A traição de Judas Iscariotes e o montante recebido esclarecem o texto de Zacarias 11.12. A quantia coincide com o preço de um escravo estabelecido em Exodo 21.28-32.

A exatidão desta profecia é impressionante. Não é evidente que Judas Iscariotes conhecesse esta passagem de Zacarias. Nada indica que tenha relacionado a profecia com os seus atos, pois prosseguiu o caminho destrutivo que terminou no suicídio.

Ponto 19: Esta quantia será lançada no templo

a) O texto

O versículo 13 de Zacarias oferece revelações notáveis. Salienta dois elementos distintos: primeiro, o dinheiro lançado no templo; depois, a intrigante referência a um oleiro.

Estes pormenores parecem prefigurar acontecimentos específicos da traição de Judas Iscariotes, descritos nos Evangelhos: Judas lança o dinheiro no templo, e esse dinheiro é depois usado para comprar o campo do oleiro.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Mateus relaciona o episódio com o texto profético de Zacarias 11.12, mas cita Jeremias como fonte. Isto suscita a questão: poderia ter confundido os dois profetas?

Esta hipótese parece pouco provável, sobretudo considerando que Mateus se dirigia a leitores familiarizados com estes textos, que facilmente identificariam qualquer erro.

Embora Jeremias trate de temas semelhantes (ver Jeremias 19.4 e Jeremias 6.11, a passagem em causa está claramente mais próxima de Zacarias 11.12. É, pois, provável que Mateus tenha escolhido intencionalmente citar Jeremias, profeta mais conhecido, para salientar a importância e o alcance do acontecimento, referindo-se implicitamente à passagem específica de Zacarias.

O texto profético de Zacarias 11.13, escrito vários séculos antes dos acontecimentos do Novo Testamento, prediz com precisão notável pormenores que se concretizarão na traição de Judas Iscariotes.

A passagem descreve uma quantia específica, o ato de lançar o dinheiro no templo e a posterior compra de um campo pertencente a um oleiro. Estes elementos, profetizados por Zacarias, concretizam-se nos atos de Judas relatados nos Evangelhos.

É interessante notar que, apesar da clareza desta profecia com o recuo histórico, os sábios religiosos contemporâneos não parecem ter relacionado a profecia de Zacarias com a traição de Judas, o que poderia ter influenciado a sua interpretação dos acontecimentos e as suas reações.

Ponto 20: Este dinheiro servirá para comprar o terreno do oleiro

a) O texto

O versículo 13 de Zacarias oferece revelações notáveis. Salienta dois elementos distintos: primeiro, o dinheiro lançado no templo; depois, a intrigante referência a um oleiro.

Estes pormenores parecem prefigurar acontecimentos específicos da traição de Judas Iscariotes, descritos nos Evangelhos: Judas lança o dinheiro no templo, e esse dinheiro é depois usado para comprar o campo do oleiro.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

As autoridades religiosas judaicas recolheram o dinheiro que Judas lançara no templo. Contudo, decidiram não o devolver ao tesouro, pois fora usado para obter a traição de Jesus.

Decidiram destinar esta quantia, completando-a se necessário, à compra de um terreno que serviria de cemitério para estrangeiros.

O terreno pertence a um oleiro, correspondendo precisamente à profecia de Zacarias 11.12-13. É interessante notar que os pormenores se cumpriram com exatidão. Contudo, os especialistas da Lei, como os , não o perceberam; caso contrário, teriam adquirido outra parcela.

É possível que, no momento da compra, os desconhecessem estes factos. As informações só foram reveladas mais tarde. Lucas menciona-as no seu livro, em Atos 1.16-19.

Só posteriormente os apóstolos constataram a justeza dos pormenores registados por Zacarias. Estes terão suscitado descontentamento entre os , que não compreenderam imediatamente as implicações da decisão.

Ponto 21: Na sua morte, oferecer-lhe-ão vinagre e fel

a) O texto

Nesta passagem, David fala das suas próprias provas e adversidades. As suas palavras exprimem os seus sofrimentos e desafios.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

O salmo de David evoca a amargura através de imagens de veneno e vinagre. Estes elementos reaparecem de forma pungente no relato da crucificação de Jesus, o Messias, feito por Mateus.

Durante o sofrimento na cruz, oferecem a Jesus vinagre misturado com fel, provavelmente uma substância amarga ou tóxica. Esta concordância entre os escritos de David e a vida de Jesus salienta o caráter profético do Antigo Testamento.

Evidencia o Messias como figura central de toda a Bíblia, cujos sofrimentos tinham sido preditos muito antes da sua realização.

Ponto 22: As suas mãos e os seus pés serão trespassados, mas os ossos não serão quebrados

a) O texto

No Salmos 22.1-30, David aborda temas que prefiguram a crucificação do Messias: mãos e pés trespassados, roupas repartidas e a túnica sorteada, acrescentando que nenhum dos seus ossos será quebrado.

Estes pormenores surpreendentemente específicos correspondem de perto aos relatos da crucificação de Jesus nos Evangelhos.

Além disso, Zacarias usa o termo «trespassado» e alude a um «filho único» e a um «primogénito». Estas expressões, embora escritas séculos antes, parecem evocar de forma impressionante as circunstâncias da morte de Jesus, salientando o caráter profético e antecipatório dos escritos do Antigo Testamento sobre o Messias.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Pode consultar as seguintes referências bíblicas: Exodo 12.46, Salmos 34.20, Zacarias 12.10 e Apocalipse 1.7.

O apóstolo João evidencia o cumprimento das profecias de Zacarias, salientando pormenores específicos concretizados nos acontecimentos em torno da vida de Jesus.

A precisão do cumprimento de tantas profecias antigas leva-nos a considerar a existência de uma direção divina que coordena estes acontecimentos.

Isto desafia o nosso raciocínio lógico habitual e sugere fortemente uma intervenção ou previsão sobrenatural, que guia o curso da história de acordo com os escritos proféticos.

Ponto 23: Uma noite invulgar surgirá em pleno meio-dia

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

O profeta Amós prediz que, no dia da morte do Messias, surgirá uma escuridão anormal em pleno meio-dia. Esta profecia é particularmente relevante para a crucificação de Jesus, durante cujo suplício se relata que o céu escureceu.

Exploraremos mais detalhadamente este fenómeno e a sua correspondência com os «três dias e três noites» de Jonas no anexo ANN035: Os três dias e três noites.

Esta análise permitirá compreender como os acontecimentos em torno da morte de Jesus se alinham com as previsões de Amós 8.9, reforçando a ideia de concordância entre as Escrituras e os factos históricos da sua vida.

Ponto 24: Haverá fenómenos atmosféricos anormais no dia da sua morte

a) O texto

b) A realidade histórica dos Evangelhos

Quando o apóstolo Pedro cita o profeta Joel, aludindo a diversos fenómenos atmosféricos, parece referir-se diretamente aos acontecimentos de 1 de abril de 33, que a maioria das testemunhas presentes teria observado.

Esta interpretação é aprofundada no anexo ANN036: O discurso do apóstolo Pedro. Aí analisamos como Pedro relaciona as profecias de Joel com as circunstâncias excecionais da crucificação de Jesus, esclarecendo o contexto bíblico e histórico da sua mensagem.

Ponto 25: Será elevado ao céu

a) O texto

O rei e profeta David evoca a ascensão do Messias.

b) A realidade histórica dos Evangelhos

A ascensão de Jesus, o Messias, acontecimento capital na vida dos apóstolos, é descrita apenas por Lucas nos seus dois escritos, o Evangelho segundo Lucas e os Atos dos Apóstolos. Neste período após a ressurreição, os discípulos interrogavam-se sobre o desfecho do ministério do Mestre.

Durante quarenta dias, o Messias ressuscitado manifestou-se várias vezes, não apenas às mulheres que o tinham seguido, mas também aos apóstolos e a outros discípulos.

Este período de incerteza terminou inesperadamente. A quinta-feira, 12 de maio do ano 33, começara como tantos outros dias, mas entraria para a história.

Reunidos com o Mestre no , os apóstolos receberam as suas últimas instruções. Depois, diante dos seus olhos espantados, Jesus, o Messias, elevou-se ao céu. Esta cena extraordinária, cheia de significado e emoção, ficaria para sempre gravada na memória deles.

Este momento marca não só o fim físico da entre os discípulos, mas também o início de uma nova era na sua missão.

A data precisa, 12 de maio de 33, salienta a importância deste acontecimento no calendário cristão, marcando uma viragem na propagação da fé.

Conclusão

Acabámos de identificar, de forma tão exaustiva quanto possível, as diversas profecias que evocam Jesus, o Messias. Algumas relacionam-se diretamente com ele; outras aludem-lhe embora já se tenham cumprido na época em que foram anunciadas.

Das 25 profecias citadas, pelo menos doze estão diretamente ligadas a este Messias. Procuramos calcular a probabilidade de doze factos anunciados antecipadamente se cumprirem no mesmo momento.

Este cálculo irrealizável revela, contudo, a impossibilidade de todas estas informações se cumprirem numa só pessoa, Jesus, o Messias, num período limitado a 3,5 anos.

O estudo destes textos leva-nos a considerar alguém ao comando da história do mundo, ordenando os acontecimentos para realizar o seu plano.

A compreensão destes factos ultrapassa a inteligência humana e permite-nos entrever uma dimensão que nos escapa inteiramente.

O profeta Daniel, durante as suas pesquisas, chega a uma conclusão surpreendente que partilhamos: