Passada a emoção provocada pela ascensão, os discípulos voltaram a Jerusalém. Contudo, resta uma pergunta: quanto tempo permaneceram no depois de verem o seu Mestre desaparecer diante de seus olhos? O relato de Lucas não permite responder com certeza.
Como a ascensão se deu na quinta-feira, 12 de maio do ano 33, parece pouco provável que tenham deixado o lugar imediatamente após a aparição dos dois homens vestidos de branco que lhes anunciaram o futuro retorno de Cristo (Atos 1.10-11). Ainda profundamente marcados pelos acontecimentos extraordinários a que acabavam de assistir, provavelmente conversaram entre si e meditaram nas últimas palavras do Senhor (Atos 1.4-8).
2- O caminho de sábado
Lucas precisa que os discípulos voltaram a Jerusalém a partir do , situado “à distância de um ” (Atos 1.12). Essa expressão designava tradicionalmente a distância que um judeu piedoso podia percorrer no dia de sem infringir as prescrições rabínicas, ou seja, cerca de dois mil côvados, o que corresponde a um pouco menos de um quilômetro. Alguns autores consideram que Lucas se limita a fornecer uma indicação geográfica conhecida de seus leitores. Nós sugerimos, por nossa parte, que ele poderia também insinuar que o já havia começado e que os discípulos continuavam a observar os costumes judaicos. Essa interpretação permanece, contudo, hipotética, pois o texto não fornece nenhuma indicação cronológica precisa.
Se essa hipótese for aceita, os discípulos só teriam voltado a Jerusalém, no mais cedo, na noite de sexta-feira.
3- O cenáculo e o lugar de reunião dos discípulos
Os onze apóstolos voltaram em seguida à casa onde costumavam reunir-se (Atos 1.13). Lucas não indica nem o proprietário nem a localização exata dessa residência. No clima de tensão que reinava após a crucificação, essa discrição podia contribuir para proteger as pessoas envolvidas.
Vários comentaristas propuseram que poderia tratar-se da casa de Maria, mãe de João, chamado Marcos, que aparece mais tarde como lugar habitual de reunião dos crentes (Atos 12.12). Outros levantaram a hipótese da casa de José de Arimateia, sem que nenhum texto permita, porém, confirmar essa proposta.
A casa de Maria constitui uma hipótese plausível. João Marcos era próximo de Pedro, de quem recolheria mais tarde as recordações que serviriam de base à redação do segundo Evangelho (1 Pedro 5.13). Em contrapartida, José de Arimateia e Nicodemos, por causa de seu envolvimento no sepultamento de Jesus (João 19.38-42), podiam ser objeto de vigilância especial das autoridades religiosas, o que teria tornado a sua residência menos favorável a reuniões discretas.
4- Uma comunidade unida na oração
Lucas enumera em seguida os nomes dos onze apóstolos e ressalta que perseveravam unânimes na oração (Atos 1.13-14). Essa unidade espiritual constitui já uma das características da Igreja nascente (Atos 2.42-47 ; Atos 4.32).
As mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a Galileia também participavam dessas reuniões (Lucas 8.1-3 ; Atos 1.14). É verossímil que os apóstolos, e particularmente Pedro, tenham relatado em detalhe os acontecimentos da ascensão e lembrado a ordem dada pelo Senhor de aguardar o cumprimento da promessa do Pai, isto é, a vinda do Espírito Santo (Atos 1.4-5).
5- Maria e os irmãos de Jesus entre os discípulos
Entre as pessoas presentes encontrava-se também Maria, a mãe de Jesus (Atos 1.14). Trata-se da última menção explícita de Maria no Novo Testamento.
Outro detalhe merece atenção: os irmãos de Jesus também faziam parte do grupo. No entanto, durante o ministério terreno do Senhor, eles não creram nele (João 7.5). A presença deles testemunha, portanto, uma mudança profunda que provavelmente ocorreu após a crucificação e sobretudo após a ressurreição. Tiago, um dos irmãos do Senhor, receberá até mesmo uma aparição particular do Cristo ressuscitado (1 Coríntios 15.7) antes de se tornar uma das principais figuras da Igreja de Jerusalém (Gálatas 1.19 ; Atos 15.13).
A ausência de menção explícita das irmãs de Jesus (Mateus 13.55-56) não significa necessariamente que estivessem ausentes. Na cultura da época, as mulheres eram frequentemente incluídas em designações mais gerais. Os relatos evangélicos mostram, aliás, que elas desempenharam um papel importante nos acontecimentos que cercaram a morte e a ressurreição de Cristo (Lucas 23.49 ; Lucas 24.10).
6- Na espera da promessa do Pai
Os textos não permitem determinar com certeza se todos os discípulos viviam permanentemente sob o mesmo teto. Contudo, a existência de uma vida comunitária temporária parece verossímil. Um grande número de crentes era originário da Galileia e ainda se encontrava em Jerusalém na espera da promessa anunciada por Jesus (Atos 1.4).
Por outro lado, como as celebrações da Páscoa haviam terminado, a maioria dos peregrinos tinha deixado a cidade. O grupo dos discípulos tornava-se assim mais visível e devia, sem dúvida, agir com prudência. Nesse contexto, esses homens e mulheres permaneciam unidos na oração e na espera confiante da intervenção de Deus e da vinda do Espírito Santo, que logo marcaria o nascimento visível da Igreja (Atos 2.1-4).
Acho que esse esquema se aproxima do que se encontra nos comentários de F. F. Bruce ou de Craig Keener: subtítulos bastante curtos e descritivos, e uma distinção clara entre o texto de Lucas e as hipóteses do exegeta. Isso reforça ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o conforto da leitura.
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