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Judas Iscariotes, um dos Doze

Judas Iscariotes, célebre por sua traição, é examinado neste artigo, que explora sua escolha como um dos doze apóstolos e as implicações teológicas dessa traição. O texto levanta questões sobre a presciência divina, o cumprimento das Escrituras e a responsabilidade humana, apoiando-se nos Evangelhos e analisando os possíveis motivos de Judas.

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Introdução

A figura de Judas Iscariotes suscita há muito tempo numerosas interrogações. Seu nome tornou-se quase sinônimo de traição, a ponto de sua presença entre os doze discípulos parecer difícil de compreender. Como o Messias Jesus pôde escolher um homem que iria entregá-lo? Ele foi surpreendido pelo comportamento de Judas, ou conhecia desde o princípio o desfecho dessa história? Essas questões dizem respeito à pessoa de Judas, à missão de Jesus, ao cumprimento das Escrituras, à presciência divina e à responsabilidade humana.

Neste estudo, procuraremos examinar os principais dados bíblicos a respeito de Judas Iscariotes. Veremos o que os Evangelhos realmente dizem sobre ele, que motivações podem ter contribuído para sua traição, como compreender o papel dos principais sacerdotes, o que representam as trinta moedas de prata e de que maneira conciliar os relatos de sua morte com os que dizem respeito à compra do campo de sangue. Por fim, tentaremos responder à pergunta central: o Messias Jesus sabia que Judas o trairia quando o escolheu entre os doze (João 6.64, João 6.70-71)?

I. Judas entre os doze

Judas Iscariotes faz plenamente parte do grupo dos doze escolhidos por Jesus. Seu nome aparece nas listas apostólicas dadas pelos Evangelhos sinóticos, onde costuma ser mencionado por último, com a precisão de que é aquele que entregou Jesus (Mateus 10.2-4, Marcos 3.13-19, Lucas 6.12-16). Depois de sua morte, ele desaparece da lista dada no início de Atos, onde Matias toma o seu lugar (Atos 1.13-26).

É importante ressaltar que Judas não era nem um discípulo de passagem nem um simples simpatizante. Pertencia ao círculo mais próximo do Mestre. Ouviu seu ensino, presenciou seus milagres, partilhou a vida comum do grupo e recebeu, como os outros, um lugar no colégio apostólico. É precisamente isso que torna sua traição tão grave: ela não vem de um inimigo externo, mas de um homem admitido na intimidade do Messias (João 13.18, Salmos 41.10).

João relata uma palavra particularmente forte de Jesus: “Não fui eu que escolhi vocês, os doze? E um de vocês é um diabo” (João 6.70-71). Essa declaração mostra que Judas foi de fato escolhido pelo próprio Jesus. A questão, portanto, não é saber se ele era realmente um dos doze, mas compreender por que Jesus o escolheu e o manteve nesse grupo até o fim.

II. O que os Evangelhos dizem sobre ele

Os Evangelhos permanecem relativamente sóbrios sobre a vida pessoal de Judas. Diferentemente de Pedro, André, Tiago, João, Filipe ou Mateus, seu chamado não é narrado. Sabemos apenas que ele é chamado Judas Iscariotes e que é designado como filho de Simão (João 13.2, João 13.26). Seu sobrenome o distingue dos outros Judas mencionados no Novo Testamento.

Apesar dessa discrição, alguns elementos se destacam com nitidez. Judas guardava a bolsa comum do grupo (João 12.6, João 13.29). Ocupava, portanto, uma função prática importante, que supunha certa confiança dos outros discípulos. Nada indica que ele fosse suspeito. Ao contrário, na última ceia, quando Jesus lhe fala, os discípulos acreditam que ele sai para comprar o necessário para a festa ou para dar algo aos pobres (João 13.27-29). Isso mostra que, aos olhos do grupo, Judas continuava sendo um homem digno de confiança.

João fornece, no entanto, uma informação decisiva: Judas era ladrão e se apropriava do que se colocava na bolsa (João 12.4-6). O texto não precisa como essa realidade foi conhecida mais tarde, mas João a afirma com clareza. Isso permite compreender melhor a lógica interior do personagem. A traição não surge num coração que tivesse permanecido são até então; ela aparece como o resultado de uma corrupção já instalada.

III. Os possíveis motivos de sua traição

Os Evangelhos mostram explicitamente que o dinheiro desempenhou um papel na decisão de Judas. Ele foi procurar os principais sacerdotes e perguntou-lhes o que estavam dispostos a lhe dar se lhes entregasse Jesus; eles então lhe pagaram trinta moedas de prata (Mateus 26.14-16). Desse ponto de vista, a cobiça é de fato um dos motivos de sua traição. O testemunho de João sobre os desvios da bolsa comum confirma essa orientação (João 12.6).

Contudo, é possível que o dinheiro não tenha sido o único fator. Vários discípulos ainda esperavam uma libertação política de Israel. Depois da crucificação, os discípulos de Emaús confessam sua decepção: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel” (Lucas 24.21). Essa palavra mostra que alguns esperavam do Messias uma intervenção visível, nacional e política. Não é impossível, portanto, que Judas tenha compartilhado, ao menos em parte, tal expectativa.

Se foi assim, ele pode ter se decepcionado com a atitude de Jesus, que se recusava a deixar-se fazer rei (João 6.15) e não entrava na lógica dos movimentos nacionalistas ou zelotes de seu tempo. Sem poder afirmá-lo com certeza, pode-se então imaginar que sua traição nasceu de várias causas combinadas: o amor ao dinheiro, a decepção diante de um Messias que não correspondia às suas expectativas e uma corrupção moral já antiga. Os Evangelhos acrescentam a isso a ação do diabo. Lucas diz que Satanás entrou em Judas (Lucas 22.3-4), e João esclarece que o diabo já havia colocado em seu coração o projeto de entregar Jesus (João 13.2). Essa influência demoníaca não apaga a responsabilidade de Judas; mostra, antes, que o coração dele deixou o mal criar raízes em vez de rejeitá-lo.

IV. Os vínculos com os principais sacerdotes

Os líderes religiosos procuravam havia algum tempo um meio de prender Jesus sem provocar tumulto entre o povo (Mateus 26.3-5, Marcos 14.1-2, Lucas 22.1-2). O ministério público de Jesus, suas denúncias contra a hipocrisia religiosa e a autoridade que exercia sobre as multidões faziam dele uma ameaça aos olhos do . Eles precisavam, portanto, de uma ocasião favorável para prendê-lo longe da multidão.

É nesse contexto que a oferta de Judas assume toda a sua importância. Lucas relata que Judas foi conversar com os principais sacerdotes e com os capitães da guarda sobre a maneira de lhes entregar Jesus (Lucas 22.3-6). Não se trata, portanto, apenas de uma traição moral; é também uma colaboração concreta com as autoridades que procuravam eliminar o Messias. Judas lhes trouxe o que não possuíam: um acesso discreto ao Mestre, longe da multidão, num lugar e num momento favoráveis.

O papel de Judas não era permitir uma identificação impossível, como se Jesus fosse desconhecido, mas facilitar uma prisão sem agitação popular. Jesus ensinava publicamente no templo (Mateus 26.55), mas prendê-lo em plena luz do dia diante das multidões podia provocar reações imprevisíveis. Judas forneceu, assim, a ocasião procurada, conduzindo a tropa ao lugar onde Jesus costumava se retirar com seus discípulos (Lucas 22.39, João 18.1-5).

Mateus é o único evangelista a precisar a quantia combinada entre Judas e os principais sacerdotes: trinta moedas de prata (Mateus 26.14-16). Esse detalhe tem um alcance simbólico considerável. No Antigo Testamento, trinta moedas de prata correspondem ao preço de um escravo (Exodo 21.32). O Messias é assim avaliado pelo preço irrisório de um servo ferido ou perdido. O contraste é impressionante entre a dignidade de Jesus e o valor pelo qual ele é entregue.

Mateus relaciona em seguida essa quantia à profecia de Zacarias, em que o profeta recebe trinta moedas de prata como salário desprezível e depois as lança na casa do , para o oleiro (Zacarias 11.12-13). É por isso que, depois do remorso de Judas, da devolução do dinheiro e da compra do campo do oleiro, Mateus vê nisso o cumprimento da Escritura (Mateus 27.9-10). Embora Mateus mencione Jeremias, parece reunir aqui vários temas proféticos, em particular os de Zacarias e Jeremias em torno do oleiro, do juízo e do campo (Jeremias 18.1-6, Jeremias 19.1-13, Jeremias 32.6-15).

Quanto ao valor real dessas trinta moedas, é difícil ser absolutamente preciso. Elas representavam, no entanto, uma quantia relativamente modesta na escala dos principais sacerdotes, ainda que pudessem parecer significativas para um homem do povo. O contraste com o perfume de grande preço derramado por Maria é marcante, pois esse perfume é avaliado em trezentos denários (João 12.3-5). Isso reforça a ideia de que a traição de Judas provavelmente não pode ser explicada apenas pelo dinheiro. Uma soma tão limitada não parece suficiente para explicar, por si só, tal ato.

VI. A morte de Judas: Mateus e Lucas

A é relatada de maneira diferente por Mateus e por Lucas. Mateus diz simplesmente que Judas, depois de lançar as moedas de prata no templo, retirou-se e foi enforcar-se (Mateus 27.5). Lucas, em Atos, afirma por sua vez que Judas caiu de cabeça, abriu-se pelo meio e todas as suas entranhas se derramaram (Atos 1.18). À primeira vista, essas duas descrições podem parecer incompatíveis.

É possível, no entanto, compreendê-las como complementares, e não contraditórias. Mateus evoca o gesto inicial do suicídio; Lucas descreve o estado do corpo descoberto depois do ocorrido. Pode-se imaginar que Judas tenha se enforcado num lugar escarpado e que, em seguida, seu corpo tenha caído e se rasgado. Essa explicação continua sendo uma hipótese de harmonização, mas permite dar conta dos dois textos sem sacrificar nenhum deles.

Seja como for, os dois relatos concordam no essencial: o fim de Judas é dramático, vergonhoso e estreitamente ligado ao preço de sua traição. Mateus insiste em seu remorso, em sua confissão — “Pequei, entregando sangue inocente” — e em seu suicídio (Mateus 27.3-5). Lucas, por sua vez, destaca o caráter público e impressionante de sua morte, a ponto de o lugar se tornar conhecido de todos (Atos 1.19). Os dois olhares se completam, portanto, mais do que se opõem.

VII. O campo de sangue: quem o comprou?

Outra dificuldade aparente diz respeito à compra do campo do oleiro. Segundo Mateus, Judas devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes, e foram eles que decidiram usar essa quantia para comprar o campo do oleiro, a fim de sepultar nele os estrangeiros (Mateus 27.3-8). No entanto, Lucas declara a respeito de Judas: “Este adquiriu um campo com o salário da iniquidade” (Atos 1.18).

A solução mais simples consiste em reconhecer que Lucas não pretende descrever a transação de maneira jurídica, mas atribuir o campo a Judas porque foi comprado com o dinheiro proveniente de sua culpa. Os sacerdotes efetuaram materialmente a aquisição, mas o campo permanece ligado a Judas por sua origem moral. É o dinheiro dele, o preço de sua traição, que serviu para essa compra (Atos 1.18-19).

Essa maneira de falar está de acordo com o uso bíblico. Diz-se que Salomão construiu o Templo, embora tenham sido operários que executaram os trabalhos (1 Reis 6.1-14, 2 Crônicas 3.1). Do mesmo modo, diz-se que os habitantes de Jerusalém crucificaram Jesus, quando foram os soldados que materialmente o pregaram na cruz (Marcos 15.24, Atos 2.23). É, portanto, legítimo atribuir uma ação àquele que é sua causa profunda. É aliás verossímil que as trinta moedas de prata não tenham bastado por si sós para cobrir a totalidade do custo do terreno, e que as autoridades religiosas tenham completado a quantia necessária. Isso não tira nada do fato de que o campo foi adquirido com o salário da iniquidade (Mateus 27.6-8).

Esse terreno foi chamado ao mesmo tempo campo do oleiro e campo de sangue (Mateus 27.8, Atos 1.19). O primeiro nome parece ligado ao antigo uso do lugar; o segundo lembra ao mesmo tempo a origem do dinheiro e o fim trágico de Judas. Mateus vê nisso o cumprimento das Escrituras em relação às trinta moedas de prata e ao campo do oleiro (Mateus 27.9-10, Zacarias 11.12-13).

VIII. Jesus sabia?

A questão central permanece a seguinte: o Messias Jesus sabia, quando escolheu Judas, que este o trairia? O testemunho do Evangelho de João leva fortemente a responder que sim. João afirma que Jesus sabia desde o princípio quais eram os que não criam e quem era aquele que o entregaria (João 6.64). Alguns versículos adiante, Jesus declara: “Não fui eu que escolhi vocês, os doze? E um de vocês é um diabo” (João 6.70-71).

Outras passagens de João vão no mesmo sentido. Jesus conhece Natanael antes mesmo de ele se aproximar (João 1.47-48). Não precisa que lhe informem a respeito dos homens, pois sabe o que há no homem (João 2.24-25). Percebe os pensamentos da multidão e o murmúrio interior de seus discípulos (João 6.15, João 6.61). João apresenta assim Jesus como o Verbo feito carne, manifestando um conhecimento que ultrapassa o de um homem comum (João 1.1, João 1.14).

É preciso, no entanto, compreender esse conhecimento à luz da encarnação. Jesus assumiu verdadeiramente a condição humana: ora a noite inteira antes de escolher os doze (Lucas 6.12-13), cresce em sabedoria (Lucas 2.52) e vive na dependência do Pai (João 5.19, Filipenses 2.6-8). Todavia, segundo o testemunho explícito de João, é difícil sustentar que ele tenha ignorado até o último momento o que Judas ia fazer (João 13.21). Parece, antes, que Jesus revela então publicamente o que já sabia.

IX. Por que o escolheu e o manteve?

Se Jesus sabia o que Judas faria, por que o escolheu entre os doze e por que o manteve até o fim? Em primeiro lugar, é preciso excluir a ideia de um erro de julgamento. Jesus não se enganou sobre Judas. A escolha desse homem não resulta nem de ignorância nem de falta de discernimento. Ela se insere no próprio desenrolar da missão do Messias (João 6.64, João 6.70-71).

Em seguida, a permanência de Judas entre os doze contribui para o cumprimento das Escrituras. Na última ceia, Jesus cita o salmo que evoca a traição de um amigo próximo que partilha o seu pão (João 13.18, Salmos 41.10). Essa permanência não traduz, portanto, uma fraqueza de Jesus, mas sua plena consciência do caminho que deve seguir até a cruz (João 10.17-18, João 17.12).

Por fim, Jesus deixa Judas ir até o fim de sua própria responsabilidade. Não o expulsa às primeiras manifestações de seu mal, mas lhe dá tempo para revelar o que carrega no coração. Judas recebe os mesmos ensinamentos que os outros, partilha a mesma mesa e se beneficia até o fim da paciência do Mestre (Mateus 26.20-25, João 13.21-27). Isso põe em evidência ao mesmo tempo a paciência de Jesus e a gravidade do endurecimento de Judas.

X. Profecia, liberdade e responsabilidade

A última ceia esclarece de modo particular o vínculo entre profecia e responsabilidade. Jesus declara: “Aquele que come o meu pão levantou contra mim o seu calcanhar” (João 13.18-19), retomando assim o (Salmos 41.10). A traição de Judas não é, portanto, um acidente imprevisto, mas um acontecimento já conhecido por Deus e anunciado na Escritura.

Isso não significa, contudo, que Judas tenha sido privado de liberdade. A Bíblia afirma ao mesmo tempo que Deus conhece de antemão o que deve acontecer e que o homem permanece responsável por seus próprios atos (Isaías 46.9-10, Isaías 55.10-11). Jesus diz que a Escritura deve se cumprir, mas também declara: “ai daquele homem por quem o Filho do Homem é entregue” (Mateus 26.24). Judas age, portanto, livremente, ao mesmo tempo que cumpre o que Deus havia anunciado.

Os Evangelhos mostram, aliás, uma progressão em seu endurecimento. O diabo primeiro coloca em seu coração o projeto de entregar Jesus (João 13.2); depois, Judas se afunda mais em sua decisão, até o momento em que Satanás entra nele (João 13.27). Não se trata de uma coerção mecânica, mas de um abandono voluntário ao mal. Assim, a soberania divina e a culpabilidade humana aparecem juntas no drama da Paixão (Atos 2.23, Tiago 1.13).

Conclusão

O estudo de Judas Iscariotes põe em evidência uma realidade profundamente perturbadora, mas essencial para a compreensão dos Evangelhos. Judas foi de fato um dos doze. Viveu muito perto do Messias Jesus, ouviu seu ensino, viu suas obras e partilhou a vida do grupo. No entanto, deixou o mal crescer nele até entregar seu Mestre por uma soma irrisória (Mateus 26.14-16, João 12.4-6).

Os textos bíblicos levam a pensar que Jesus não foi surpreendido por essa traição. Segundo João, ele sabia desde o princípio quem o entregaria (João 6.64, João 6.70-71). Não escolheu Judas, portanto, por engano. Se o manteve entre os doze, foi ao mesmo tempo porque esse ato fazia parte do cumprimento das Escrituras e porque deixava Judas ir até o fim de sua própria responsabilidade (João 13.18, Salmos 41.10).

Judas não aparece nem como um inocente arrastado contra a vontade, nem como um simples instrumento passivo. Ele age livre e culposamente, e seu ato se inscreve, no entanto, no desígnio soberano de Deus (Mateus 26.24, Atos 1.16, Atos 2.23). Esse é sem dúvida o ensino mais difícil deste estudo, mas também o mais importante: a presciência divina não anula a liberdade humana, e o cumprimento da palavra de Deus nunca suprime a responsabilidade moral do homem.