Na epístola aos Hebreus, o autor dirige uma exortação urgente aos crentes: convida-os a permanecerem apegados à mensagem de Jesus Cristo e a não se desviarem do ensino recebido. Essa passagem ressalta a importância de permanecer fiel à Palavra, para não se afastar dela nem a abandonar.
O termo “negligenciar”, empregado aqui, não se limita à ideia de rejeição voluntária. Abrange também a ignorância, a banalização ou ainda a procrastinação diante do chamado à salvação. O autor insiste na grandeza incomparável dessa salvação, iniciada pelo Filho (veja 1 Coríntios 15.20-22), confirmada por Deus (João 14.26; Atos 2.33) e atestada pelo Espírito (Romanos 8.16). Assim, a salvação em Jesus se apresenta como uma realidade única e essencial para a humanidade.
Negligenciar essa salvação não é algo sem importância: o texto lembra que a Lei transmitida pelos anjos já implicava sanções para a desobediência. Com muito mais razão, a recusa da salvação proclamada pelo Filho acarreta consequências de ordem escatológica, colocando em jogo a justiça divina e a responsabilidade de cada pessoa.
Essa salvação não se limita a uma simples melhoria moral ou social. Trata-se da reconciliação com Deus, do acesso à vida eterna e da entrada no Reino. Recusar ou negligenciar essa salvação equivale a privar-se da comunhão com Deus e a expor-se a uma separação definitiva (veja Hebreus 10.26-31; Mateus 25.41).
Muitas pessoas percebem Deus como uma entidade fundamentalmente benevolente, até infinitamente boa. Essa visão, difundida em certos meios, leva às vezes a pensar que Deus não poderia condenar ninguém.
Daí decorre uma tendência, em alguns, de minimizar a possibilidade de uma rejeição . Para evitar considerar as consequências de seus atos, procuram soluções conciliadoras ou se tranquilizam comparando suas próprias faltas com as que outros julgam mais graves. A atitude de Talleyrand ilustra isso bem: “Quando me olho, me desolo; quando me comparo, me consolo.”
No entanto, as numerosas advertências do Messias Jesus em suas convidam cada um a refletir seriamente sobre a realidade e as consequências da recusa da salvação. Jesus não promete prosperidade nem bem-estar fácil para atrair as multidões, ao contrário de certos discursos políticos. Ele anuncia claramente as consequências ligadas à aceitação ou à recusa de sua salvação: a decisão cabe a cada um, mas os desfechos são claramente enunciados, e Deus cumprirá o que disse.
Cada leitor é assim colocado diante de sua própria responsabilidade espiritual. A sorte se decide aqui e agora, mas sempre continua sendo possível mudar de rumo. A liberdade individual permanece inteira: é essencial compreender as consequências de suas escolhas.
Pode-se questionar a veracidade dos escritos bíblicos: isso cabe à liberdade de cada um. No entanto, segundo a perspectiva bíblica, o cumprimento das palavras divinas não depende de sua aceitação pela maioria ou pelo indivíduo.
O exemplo da crença numa Terra plana durante séculos ilustra esse ponto: o fato de a maioria acreditar nisso não mudou a realidade. A Terra continuou esférica, independentemente das convicções humanas. Esse fato ressalta a importância de distinguir entre a crença da maioria e a verdade objetiva.
Existem muitos exemplos históricos em que uma minoria sustentou a verdade contra a opinião geral. Por exemplo, Galileu, defendendo o heliocentrismo no século XVII, opôs-se à maioria, que afirmava que a Terra estava imóvel no centro do universo. Apesar da oposição, era de fato a minoria que detinha a verdade científica. Esse exemplo lembra que seguir a maioria nem sempre é garantia de acerto, sobretudo no campo espiritual ou moral.
Buscar a verdade espiritual exige, portanto, um caminho pessoal, sincero e atento. Não basta seguir as crenças dominantes: é preciso ousar questionar as próprias certezas, abrir o coração à revelação e distinguir a verdade eterna do conforto coletivo.
Dominique Lormier