A ideia de que o discípulo amado (João, segundo nós) representa a humanidade crente e de que Maria é uma figura da Igreja é uma interpretação teológica solidamente fundamentada na tradição, mas não uma leitura histórica literal do texto. Por outras palavras: é uma compreensão simbólica oriunda de uma exegese espiritual, não uma declaração explícita do próprio Evangelho.
Mais precisamente:
O texto de João 19.26-27 descreve um facto concreto — Jesus confia a sua mãe ao seu discípulo; mas o Evangelho de João, muito simbólico por natureza, utiliza frequentemente acontecimentos reais para transmitir um sentido espiritual mais amplo.
Desde os Pais da Igreja, particularmente Ireneu, Agostinho, Ambrósio ou ainda Bernardo de Claraval, esta cena tem sido interpretada como o momento em que se forma a comunidade dos crentes. Maria é vista aí como a mãe espiritual dos discípulos, e o discípulo «anónimo» como a figura do crente fiel.
Esta leitura assenta também na teologia joanina do «novo povo de Deus» nascido da cruz, comparável ao nascimento de Eva tirada do lado de Adão (Gênesis 2.21-23, 1 Coríntios 15.45). Quando o soldado trespassa o lado de Jesus e dele saem «sangue e água» (João 19.34), o evangelista vê neste sinal a fonte da vida nova dada à humanidade. Assim, Maria, de pé junto à cruz (João 19.25), representa a humanidade que acolhe a vida em Cristo; neste sentido, ela testemunha o nascimento do «novo Adão» e do povo resgatado que nasce do seu sacrifício.
Portanto, sim: é uma interpretação simbólica tradicional, perfeitamente legítima e teologicamente fundamentada na leitura cristã do texto, mas que ultrapassa o sentido puramente narrativo para revelar uma dimensão eclesial e mística pretendida por numerosos comentadores.