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Por que Daniel considerava a comida real uma contaminação?

O conflito aparece quando Daniel toma uma decisão pessoal: “Daniel resolveu não se contaminar com as iguarias do rei nem com…

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1. O versículo central: Daniel 1.8

O conflito aparece quando Daniel toma uma decisão pessoal:

“Daniel resolveu não se contaminar com as iguarias do rei nem com o vinho que o rei bebia, e pediu ao chefe dos eunucos que não o obrigasse a contaminar-se.” (Daniel 1.8)

Até esse momento, Daniel não recusou a formação recebida na Babilônia.

Ele aprende as letras e a língua dos caldeus (Daniel 1.4).

Recebe um novo nome (Daniel 1.7).

Está destinado ao serviço real (Daniel 1.5).

A comida constitui, portanto, o primeiro âmbito em que o relato menciona explicitamente um limite.

2. O termo “contaminar”

O texto hebraico emprega uma forma do verbo גָּאַל, gāʾal, usado aqui no sentido de contaminar, tornar impuro ou tornar-se impuro.

Daniel não apresenta, portanto, a sua decisão simplesmente como uma preferência alimentar.

Não declara que não aprecia as iguarias babilônicas.

Considera que o seu consumo comprometeria, de uma maneira ou de outra, a sua fidelidade religiosa.

O vocabulário escolhido dá assim à sua decisão uma dimensão espiritual, e não simplesmente dietética.

3. O texto não dá a razão exata

Essa observação constitui o ponto de partida indispensável.

Daniel 1.8 afirma claramente que Daniel considera a comida e o vinho capazes de o contaminar.

Em contrapartida, o versículo não precisa:

“porque as carnes eram impuras segundo a ”;

“porque tinham sido oferecidas aos deuses babilônicos”;

“porque os animais não tinham sido abatidos conforme as prescrições”;

ou:

“porque comer à mesa do rei significava reconhecer o seu domínio religioso”.

Essas explicações são reconstruções possíveis.

Não devem ser confundidas com a afirmação explícita do texto.

4. Primeira hipótese: as prescrições alimentares da Torá

A explicação mais imediata consiste em aproximar Daniel 1 das prescrições alimentares da .

Levítico 11 distingue os animais que podiam ser consumidos daqueles considerados impuros (Levítico 11.1-47).

Deuteronómio 14 retoma igualmente essa distinção (Deuteronômio 14.3-21).

Num ambiente babilônico, Daniel provavelmente não podia controlar a natureza exata de todas as carnes que lhe eram servidas.

Algumas podiam, portanto, pertencer às categorias proibidas a Israel.

Essa hipótese tem, assim, uma base bíblica séria.

5. O problema talvez não dissesse respeito apenas à espécie animal

Mesmo quando um animal pertencia a uma espécie permitida, outras prescrições podiam entrar em consideração.

A proíbe especialmente o consumo do sangue:

“Somente não comereis a carne com a sua vida, isto é, com o seu sangue.” (Gênesis 9.4)

Essa proibição é desenvolvida na legislação de Israel (Levítico 17.10-14).

Daniel dificilmente podia conhecer as condições em que as carnes da corte haviam sido preparadas.

A questão podia, portanto, dizer respeito não só à natureza do animal, mas também ao seu tratamento.

6. As prescrições alimentares explicam bem a carne, mas menos diretamente o vinho

Uma dificuldade aparece, contudo.

Daniel recusa não só as iguarias do rei, mas também o seu vinho (Daniel 1.8).

Ora, o consumo do vinho não é geralmente proibido pela .

O vinho aparece, ao contrário, em diversos contextos legítimos da vida de Israel (Deuteronômio 14.26).

Uma explicação fundada exclusivamente na distinção entre animais puros e impuros não basta, portanto, para dar conta de todos os elementos do versículo.

Essa dificuldade leva a considerar outros fatores.

7. Segunda hipótese: uma comida associada aos cultos babilônicos

Outra explicação supõe que as iguarias e o vinho da corte podiam estar associados às práticas religiosas babilônicas.

Nas sociedades antigas, comida, banquete real e culto não eram necessariamente domínios inteiramente separados.

Alimentos podiam ser consagrados, apresentados ou associados às divindades antes de serem consumidos.

Nesse caso, participar da mesa real poderia comportar uma dimensão religiosa problemática para um judeu fiel ao Deus de Israel.

8. Uma hipótese possível, mas não explicitada em Daniel 1

Essa explicação possui uma certa verossimilhança histórica.

Ela permite compreender, em particular, por que o vinho seria incluído com as iguarias.

Mas Daniel 1 nunca declara que os alimentos tinham sido sacrificados às divindades babilônicas.

Não menciona nem altar, nem sacrifício, nem cerimônia cultual nesse episódio.

É preciso, portanto, evitar escrever como um fato estabelecido que Daniel recusa a comida porque ela tinha sido oferecida aos ídolos.

O texto não permite tal certeza.

9. Terceira hipótese: a mesa real como sinal de dependência

A comida provém diretamente da mesa de Nabucodonosor:

“O rei lhes designou para cada dia uma porção das iguarias da sua mesa e do vinho que ele bebia.” (Daniel 1.5)

Essa precisão pode ser significativa.

No mundo antigo, comer à mesa de um soberano podia exprimir uma relação de dependência, de favor e de pertença à sua casa.

Receber diariamente a comida do rei podia, assim, contribuir para a integração dos jovens judeus no sistema imperial.

10. A comida como instrumento de integração

Daniel 1 apresenta várias medidas sucessivas:

uma seleção dos jovens;

uma formação linguística e cultural;

uma alimentação fornecida pelo rei;

uma ;

depois a entrada ao serviço real.

A comida pertence, portanto, ao conjunto do programa de integração.

É possível que Daniel tenha considerado essa dependência diária em relação à mesa real como ultrapassando um limite simbólico.

No entanto, o texto não formula explicitamente essa interpretação.

Ela deve, portanto, permanecer uma possibilidade e não se tornar a explicação única.

11. Por que Daniel aceita, então, servir ao rei?

Se a comida real representasse simplesmente a dependência política em relação a Nabucodonosor, surgiria uma dificuldade.

Daniel acaba aceitando entrar ao serviço do soberano (Daniel 1.19).

Exerce em seguida responsabilidades na administração babilônica (Daniel 2.48).

O simples fato de depender politicamente do rei não pode, portanto, explicar por si só a contaminação.

A dificuldade devia comportar uma dimensão religiosa particular.

12. Uma combinação de vários fatores continua possível

As diferentes hipóteses não são necessariamente exclusivas.

Daniel podia ser confrontado simultaneamente:

com a incerteza a respeito dos animais servidos;

com as condições de preparo das carnes;

com a presença eventual de sangue;

com uma possível associação cultual dos alimentos;

e com o significado particular da mesa real.

O relato não obriga a escolher de modo absoluto uma só dessas explicações.

Pode refletir uma situação em que várias razões tornavam impossível para Daniel consumir sem reservas a comida que lhe era atribuída.

13. Por que os três companheiros seguem Daniel?

Daniel é aquele cuja decisão é explicitamente descrita:

“Daniel resolveu em seu coração não se contaminar.” (Daniel 1.8)

A sequência mostra, contudo, que a prova diz respeito aos quatro jovens (Daniel 1.11-16).

Hananias, Misael e Azarias participam, portanto, do mesmo regime alimentar.

O relato apresenta assim uma iniciativa de Daniel que se tornou uma prática comum aos quatro judeus.

14. Daniel não provoca um confronto

A maneira como Daniel age merece uma atenção particular.

Ele não rejeita publicamente as iguarias do rei.

Pede ao chefe dos eunucos a autorização de não se contaminar (Daniel 1.8).

Essa atitude indica que a fidelidade não é confundida com provocação.

Daniel procura uma solução compatível com a sua consciência, respeitando ao mesmo tempo a posição do responsável colocado acima dele.

15. Deus concede a Daniel favor e compaixão

O relato precisa imediatamente:

“Deus fez que Daniel achasse graça e compaixão diante do chefe dos eunucos.” (Daniel 1.9)

Essa frase pertence ao motivo da “dádiva” que estrutura Daniel 1.

Deus entrega Jeoaquim a Nabucodonosor (Daniel 1.2).

Deus concede a Daniel o favor do responsável (Daniel 1.9).

Deus dá em seguida aos quatro jovens conhecimento e inteligência (Daniel 1.17).

A resolução de Daniel é, portanto, colocada num relato em que a ação humana e a ação divina permanecem estreitamente associadas.

16. O temor do chefe dos eunucos é compreensível

O responsável hesita:

“Receio o rei, meu senhor, que designou a vossa comida e a vossa bebida.” (Daniel 1.10)

A sua reação mostra que a comida não era deixada à escolha pessoal dos jovens.

Fazia parte do programa estabelecido pelo soberano.

Modificar esse regime podia, portanto, ser interpretado como uma falta contra as ordens reais.

Daniel precisa encontrar uma solução que não exponha inutilmente o seu interlocutor.

17. O teste de dez dias

Daniel propõe então:

“Experimenta os teus servos durante dez dias.” (Daniel 1.12)

Pede uma alimentação composta de produtos vegetais e de água.

O teste tem um objetivo preciso: permitir que o responsável constate o seu estado físico antes de tomar uma decisão definitiva (Daniel 1.13).

O relato apresenta, portanto, uma iniciativa pragmática.

Daniel não pede imediatamente uma isenção permanente sem fornecer um meio de avaliar as suas consequências.

18. O que significa o termo traduzido por “legumes”?

Daniel pede que lhes deem זֵרְעֹנִים, zērōnîm.

O termo está ligado à ideia de semente ou do que é semeado.

A tradução tradicional “legumes” é possível no contexto, mas pode ser compreendida de forma estreita demais no português moderno.

A expressão pode designar mais amplamente alimentos provenientes do que é semeado: produtos vegetais, grãos ou comida de origem vegetal.

Não é, portanto, necessário imaginar unicamente algumas verduras.

19. O regime de Daniel não é apresentado como uma prescrição universal

O relato nunca ordena a todos os crentes que adotem o regime de Daniel.

Daniel age numa situação particular.

O seu objetivo explícito é não se contaminar com as iguarias e o vinho do rei.

A passagem não constitui, portanto, em si mesma uma prescrição geral de vegetarianismo.

Transformar Daniel 1 num tratado universal de nutrição ultrapassaria largamente a intenção do texto.

20. Daniel 10 confirma que Daniel não renuncia definitivamente à carne e ao vinho

Uma passagem posterior é particularmente importante.

Daniel declara:

“Não comi nenhuma comida apetitosa, nem carne nem vinho entraram na minha boca.” (Daniel 10.3)

Essa declaração quase não teria sentido se Daniel tivesse deixado definitivamente de consumir toda carne e todo vinho desde Daniel 1.

Daniel 10 descreve um período particular de abstinência.

O texto sugere, portanto, fortemente que o regime de Daniel 1 não se tinha necessariamente tornado uma regra alimentar permanente para toda a sua vida.

21. O resultado depois de dez dias

Depois do período de teste:

“Ao cabo de dez dias, tinham melhor aparência e estavam mais robustos do que todos os jovens que comiam as iguarias do rei.” (Daniel 1.15)

O responsável aceita então continuar a dar-lhes a alimentação pedida (Daniel 1.16).

O relato apresenta esse resultado como a confirmação de que a sua fidelidade não acarretou o desastre temido pelo responsável.

22. Deve-se interpretar os dez dias simbolicamente?

O número dez pode ter, em outras partes da Bíblia, diferentes funções simbólicas.

Mas Daniel 1 não fornece nenhum indício que obrigue a atribuir aqui um significado oculto aos dez dias.

No contexto, trata-se antes de tudo de um período de teste suficientemente curto para ser aceitável pelo responsável e suficientemente longo para permitir uma observação.

Uma interpretação simbólica complexa não é, portanto, necessária.

23. O texto não descreve uma experiência científica

A passagem também não deve ser lida como uma experiência nutricional no sentido moderno.

Quatro pessoas durante dez dias não constituem evidentemente um protocolo científico que permita comparar dois regimes alimentares.

O objetivo do relato é teológico.

Mostra que Daniel pode manter o limite que considera necessário à sua fidelidade sem que essa decisão o impeça de cumprir a formação imposta.

24. A verdadeira questão é a da fidelidade

O centro da passagem não é, portanto, nem a carne, nem os legumes, nem a superioridade fisiológica de um regime alimentar.

A questão fundamental é formulada em Daniel 1.8:

Daniel recusa contaminar-se.

O relato mostra um homem colocado num ambiente em que quase nada controla.

Ele não escolheu a Babilônia.

Não escolheu a sua formação.

Não escolheu o seu novo nome.

Não escolheu o rei a quem terá de servir.

Mas, quando julga que uma decisão compromete a sua fidelidade a Deus, estabelece um limite.

25. Um limite que prepara Daniel 3 e Daniel 6

Essa estrutura reaparecerá nos relatos seguintes.

Os companheiros de Daniel podem servir a Nabucodonosor, mas se recusam a adorar a sua estátua (Daniel 3.16-18).

Daniel pode servir na administração persa, mas se recusa a deixar de orar ao seu Deus (Daniel 6.9-10).

Daniel 1 fornece, portanto, a primeira manifestação do princípio que estruturará esses relatos:

a autoridade política pode ser reconhecida e servida, mas nunca se torna absoluta.

Quando a fidelidade a Deus e a exigência humana se tornam incompatíveis, a fidelidade a Deus conserva a prioridade.

26. O que se pode afirmar com certeza

A análise permite finalmente distinguir vários níveis.

Certo: Daniel considera as iguarias e o vinho do rei capazes de o contaminar (Daniel 1.8).

Certo: ele pede uma alimentação diferente, composta de produtos vegetais e de água (Daniel 1.12).

Certo: os seus três companheiros participam da prova (Daniel 1.11-16).

Certo: essa abstinência não implica necessariamente uma rejeição permanente de toda carne e de todo vinho, como mostra Daniel 10.3.

Em contrapartida, a razão precisa da contaminação nunca é explicitamente formulada.

27. O que deve permanecer hipotético

Várias explicações continuam possíveis:

as prescrições sobre animais puros e impuros;

as condições de abate e a eventual presença de sangue;

uma associação dos alimentos com os cultos babilônicos;

o significado religioso ou político da mesa real;

uma combinação de vários desses fatores.

Nenhuma dessas explicações deve ser apresentada isoladamente como se Daniel 1 a enunciasse explicitamente.

Referências bíblicas citadas

Gênesis 9.4 ; Levítico 11.1-47 ; Levítico 17.10-14 ; Deuteronômio 14.3-21 ; Deuteronômio 14.26 ; Daniel 1.2 ; Daniel 1.4 ; Daniel 1.5 ; Daniel 1.7 ; Daniel 1.8 ; Daniel 1.9 ; Daniel 1.10 ; Daniel 1.11-16 ; Daniel 1.12 ; Daniel 1.13 ; Daniel 1.15 ; Daniel 1.16 ; Daniel 1.17 ; Daniel 1.19 ; Daniel 2.48 ; Daniel 3.16-18 ; Daniel 6.9-10 ; Daniel 10.3.

Conclusão do anexo

Daniel 1.8 fornece um dado certo: Daniel considera que consumir as iguarias e o vinho do rei acarretaria para ele uma forma de contaminação.

O texto não dá, contudo, a razão exata dessa convicção.

As prescrições alimentares da constituem uma primeira explicação séria, sobretudo no que diz respeito às carnes. Mas explicam menos diretamente a recusa do vinho.

A incerteza a respeito das condições de preparo, a presença eventual de sangue, uma possível associação com os cultos babilônicos e o significado particular da mesa real também podem ter desempenhado um papel.

A solução mais prudente consiste, portanto, em não reduzir Daniel 1.8 a uma única causa que o texto não formula.

O essencial do relato está em outro lugar.

Daniel aceita grande parte das imposições do seu novo ambiente: formação babilônica, novo nome e serviço ao soberano. Mas discerne um limite que se recusa a ultrapassar.

Esse limite não é imposto de maneira agressiva. Daniel pede uma solução, propõe um teste e procura não pôr em perigo o responsável encarregado dele.

Daniel 1 apresenta assim uma fidelidade ao mesmo tempo firme e ponderada.

A passagem não procura principalmente estabelecer um regime alimentar ideal. Mostra como Daniel aprende, desde o começo da sua estada na Babilônia, a distinguir o que pode aceitar daquilo que não pode aceitar sem comprometer a sua fidelidade a Deus.