ANX015

A formação na corte babilônica: língua, literatura e sabedoria dos caldeus

Nabucodonosor ordena a Aspenaz, chefe dos seus altos funcionários, que selecione alguns jovens entre os judeus deportados (Daniel 1.3). O texto especifica as qualidades…

40 min 51 versículos 2 livros

1. Uma seleção destinada ao serviço real

Nabucodonosor ordena a Aspenaz, chefe dos seus altos funcionários, que selecione alguns jovens entre os judeus deportados (Daniel 1.3).

O texto especifica as qualidades procuradas:

“jovens sem defeito corporal, de belo aspecto, dotados de sabedoria, inteligência e instrução, capazes de servir no palácio do rei” (Daniel 1.4).

A seleção não repousa, portanto, em um único critério.

Os candidatos devem possuir qualidades físicas, intelectuais e sociais compatíveis com o serviço da corte.

2. Jovens oriundos das elites de Judá

Daniel 1.3 menciona “a descendência real” e “as famílias nobres”.

A formação diz respeito, portanto, ao menos em parte, a jovens pertencentes às elites judaicas.

Essa seleção tem uma lógica política compreensível.

Jovens oriundos dos grupos dirigentes de um território submetido podiam constituir candidatos particularmente adequados à integração na administração imperial.

Conheciam a sua própria cultura e, ao mesmo tempo, podiam ser formados para as exigências do novo império.

3. Isaías 39 constitui um possível pano de fundo

Muito antes dos acontecimentos de Daniel 1, Isaías havia anunciado ao rei Ezequias:

“E tomarão de teus filhos, que de ti saírem, que tu gerares, para serem eunucos no palácio do rei de Babilônia.” (Isaías 39.7)

A aproximação com Daniel 1 é natural, visto que jovens oriundos da família real são levados ao palácio babilônico.

É preciso, contudo, evitar tirar daí uma conclusão que Daniel não formula.

Daniel 1 nunca declara explicitamente que Daniel, Hananias, Misael e Azarias tenham sido fisicamente castrados.

O título do responsável a quem são confiados não basta para estabelecer a sua condição física pessoal.

4. “As letras e a língua dos caldeus”

O cerne do programa aparece em Daniel 1.4:

“... e que lhes ensinem as letras e a língua dos caldeus.”

A expressão associa duas dimensões.

A primeira diz respeito às letras, isto é, a um saber ligado à escrita e à cultura erudita.

A segunda diz respeito à língua.

Os jovens judeus não são, portanto, apenas deslocados para a Babilônia: devem adquirir os instrumentos intelectuais necessários para funcionar em seu novo ambiente.

5. O que significa aqui “caldeus”?

O termo “caldeus” pode ter vários usos no livro de Daniel.

Pode designar os babilônios em sentido histórico ou étnico.

Em certas passagens, aparece também no contexto dos grupos de especialistas ligados à corte real (Daniel 2.2; Daniel 2.10).

Em Daniel 1.4, a expressão “letras e língua dos caldeus” designa antes de tudo a cultura que os jovens devem aprender em seu novo ambiente babilônico.

Não é necessário supor que a palavra tenha exatamente o mesmo matiz em todas as suas ocorrências.

6. Que língua Daniel devia aprender?

A questão é mais complexa do que uma simples identificação com uma língua única.

A Babilônia utilizava várias línguas e sistemas de escrita, conforme os contextos.

O acádico, em sua forma babilônica, ocupava um lugar importante na tradição escrita mesopotâmica.

O aramaico também era amplamente utilizado nas comunicações do Oriente Próximo.

Daniel 2.4 introduz justamente uma importante seção aramaica do livro, quando os caldeus se dirigem ao rei “em aramaico” (Daniel 2.4).

Daniel 1 não especifica, porém, os detalhes do programa linguístico.

Seria, portanto, excessivo identificar a expressão “língua dos caldeus” com um currículo linguístico cujos componentes pudéssemos reconstituir exatamente.

7. As “letras” implicam mais do que a conversação corrente

O texto não diz simplesmente que Daniel deve aprender a falar com os babilônios.

Associa língua e “letras”.

Essa precisão sugere uma formação intelectual mais ampla.

Para servir no ambiente da corte, os jovens deviam ser capazes de compreender e utilizar os saberes necessários às suas funções.

Daniel 1 apresenta, portanto, uma verdadeira formação, e não uma simples iniciação linguística elementar.

8. A cultura mesopotâmica possuía uma longa tradição erudita

O mundo babilônico havia desenvolvido, ao longo de séculos, uma importante cultura da escrita.

Os escribas transmitiam textos administrativos, lexicais, religiosos, literários, científicos e divinatórios.

Os conhecimentos ligados aos calendários, às observações celestes, aos presságios e às práticas de adivinhação também ocupavam um lugar importante em certos meios eruditos.

Esse contexto permite compreender o que podia representar uma formação superior na Babilônia.

Mas Daniel 1 não fornece a lista das matérias efetivamente estudadas por Daniel e seus companheiros.

9. É preciso evitar reconstruir um programa escolar excessivamente preciso

Seria, portanto, imprudente afirmar que Daniel estudou necessariamente cada uma das disciplinas conhecidas nos arquivos mesopotâmicos.

O texto não dá nem horário, nem lista de tabuinhas, nem programa detalhado.

Afirma apenas que os quatro jovens são instruídos nas letras e na língua dos caldeus.

Os conhecimentos gerais sobre a educação mesopotâmica esclarecem o contexto.

Não devem ser transformados em informações explicitamente dadas sobre a formação pessoal de Daniel.

10. Daniel aceita essa formação

Um elemento do relato merece ser sublinhado.

Daniel não se recusa a aprender as letras e a língua da Babilônia.

O texto não relata nenhuma objeção da parte dele contra essa formação.

A sua primeira recusa explícita diz respeito à comida real (Daniel 1.8).

Essa distinção é fundamental.

Para Daniel, aprender a cultura de um império pagão não equivale necessariamente a adotar a sua religião.

11. Conhecer uma cultura não é pertencer a ela religiosamente

Daniel pode aprender os conceitos, o vocabulário e os métodos intelectuais de seu novo ambiente sem reconhecer as divindades babilônicas como seus deuses.

Essa distinção será visível em Daniel 2.

O rei convoca os magos, os astrólogos, os encantadores e os caldeus para que respondam ao seu pedido (Daniel 2.2).

Daniel se encontra no mesmo ambiente de corte.

Contudo, quando recebe a revelação do mistério, não atribui o conhecimento a uma técnica babilônica.

Atribui-o ao Deus do céu (Daniel 2.19-23).

12. Daniel conhece o sistema sem adotar a sua fonte religiosa

Essa posição constitui uma das características importantes do personagem.

Daniel torna-se suficientemente competente para servir no mais alto nível da administração.

Compreende o mundo em que vive.

Pode dialogar com os soberanos.

Pode exercer responsabilidades.

Mas o relato distingue constantemente as suas competências adquiridas da revelação que recebe de Deus.

A formação babilônica explica uma parte de suas capacidades administrativas e culturais; não explica as suas revelações proféticas.

13. Deus concede igualmente conhecimento e inteligência

Daniel 1.17 esclarece:

“Deus deu a estes quatro jovens conhecimento e inteligência em todas as letras, e sabedoria; e Daniel explicava todas as visões e todos os sonhos.”

Essa declaração ocorre depois do período de formação.

O relato não apresenta, portanto, uma oposição simplista entre aprendizado humano e dom divino.

Os jovens estudam.

Ao mesmo tempo, Deus lhes dá conhecimento e inteligência.

O texto articula, assim, formação e dom.

14. A sabedoria não é apresentada como puramente sobrenatural

Daniel e seus companheiros não recebem o seu saber sem aprendizado.

Daniel 1.4-5 menciona explicitamente a sua formação.

Daniel 1.17 afirma em seguida que Deus lhes concede conhecimento e inteligência.

Esses dois dados devem ser mantidos juntos.

O livro não valoriza, portanto, nem uma autonomia absoluta da inteligência humana, nem um desprezo pelo aprendizado.

A competência dos jovens se desenvolve em uma formação real, ao passo que o narrador reconhece Deus como fonte última das suas capacidades.

15. Daniel possui, contudo, um dom particular

Daniel 1.17 distingue Daniel dos seus três companheiros:

“Daniel explicava todas as visões e todos os sonhos.”

Essa capacidade prepara diretamente o que vem a seguir no livro.

Em Daniel 2, Nabucodonosor tem um sonho que os sábios da Babilônia não conseguem revelar-lhe.

Daniel recebe então o mistério em uma visão noturna (Daniel 2.19).

O primeiro capítulo prepara, assim, a função particular que Daniel exercerá nos capítulos seguintes.

16. O contraste com os sábios da Babilônia

Daniel 2 estabelece um contraste importante.

Os especialistas da corte reconhecem a sua incapacidade diante da exigência do rei (Daniel 2.10-11).

Daniel não pretende possuir naturalmente a resposta.

Ele declara:

“O segredo que o rei exige, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos o podem revelar ao rei. Mas há um Deus nos céus, o qual revela os segredos.” (Daniel 2.27-28)

O contraste não diz respeito, portanto, simplesmente ao nível intelectual.

Diz respeito à fonte da revelação.

17. Daniel não despreza o conhecimento adquirido

Essa distinção nunca leva Daniel, contudo, a rejeitar todo conhecimento adquirido.

Ele continua sendo um homem instruído.

Exerce funções administrativas.

Domina os códigos necessários para se dirigir aos soberanos.

Sabe interpretar as situações políticas.

O livro não apresenta, portanto, a ignorância como uma forma superior de espiritualidade.

Distingue antes o conhecimento que o ser humano pode aprender da revelação que somente Deus pode dar.

18. Os três anos de formação

Daniel 1.5 indica que os jovens devem ser criados “durante três anos”.

Ao fim desse período, devem apresentar-se diante do rei.

Trata-se, portanto, de uma formação orientada para uma função precisa.

Deve transformar jovens cativos oriundos das elites judaicas em homens capazes de ser empregados no ambiente real babilônico.

A duração sublinha o caráter estruturado dessa preparação.

19. Os três anos levantam uma questão cronológica

Surge uma dificuldade quando se aproxima Daniel 1.5 de Daniel 2.1.

A primeira passagem menciona três anos de formação.

A segunda situa o sonho de Nabucodonosor no segundo ano do seu reinado.

Daniel parece, no entanto, já exercer uma função que lhe permite intervir na crise provocada pelo decreto contra os sábios.

Essa questão não deve ser resolvida suprimindo um dos dados.

Depende, em particular, da maneira antiga de contar os anos e da possibilidade de os anos de formação corresponderem a porções de anos civis.

Será examinada especificamente no anexo dedicado a Daniel 1.5 e Daniel 2.1.

20. O exame final diante de Nabucodonosor

No fim do período fixado, os jovens são apresentados ao rei (Daniel 1.18).

Nabucodonosor conversa com eles.

O texto declara:

“Entre todos eles, não se achou nenhum como Daniel, Hananias, Misael e Azarias.” (Daniel 1.19)

O exame real confirma, portanto, a sua aptidão para o serviço.

O programa de formação atinge o seu objetivo administrativo.

21. “Dez vezes superiores”: uma expressão de excelência

Daniel 1.20 acrescenta:

“Em toda matéria de sabedoria e inteligência sobre a qual o rei os interrogava, achava-os dez vezes mais doutos do que todos os magos e astrólogos que havia em todo o seu reino.”

A expressão “dez vezes” não deve ser necessariamente entendida como uma medida matemática.

Sublinha a sua excepcional superioridade na avaliação do rei.

O número exprime aqui a amplitude do contraste.

22. Os especialistas da corte não são todos intercambiáveis

As traduções em português utilizam diferentes termos para designar os grupos de sábios presentes na corte: magos, encantadores, astrólogos, caldeus, sábios ou adivinhos, conforme as passagens e as escolhas de tradução.

Essas categorias não devem ser consideradas automaticamente como perfeitamente sinônimas.

O mundo da corte babilônica compreendia diferentes tipos de especialistas.

Daniel pertence a esse ambiente institucional, sem que o texto o identifique necessariamente com todas as práticas religiosas ou divinatórias exercidas por esses grupos.

23. Uma distinção essencial entre função e crença

Daniel pode ser integrado a uma administração que comporta especialistas cujas crenças ele não partilha.

Essa situação constitui uma das grandes questões do livro.

O relato não pede a Daniel que viva fora da sociedade babilônica.

Mostra-o, ao contrário, no coração das suas instituições.

A fidelidade consiste então não em evitar toda participação, mas em discernir os limites que essa participação não pode ultrapassar.

24. Daniel continuará a ler os escritos de Israel

A formação babilônica não substitui a memória das Escrituras de Israel.

Muitos anos depois, Daniel declara:

“Eu, Daniel, entendi pelos livros que o número de anos de que o falara a Jeremias, o profeta, para as ruínas de Jerusalém, era de setenta anos.” (Daniel 9.2)

Daniel conhece, portanto, as letras da Babilônia sem abandonar os escritos proféticos do seu povo.

Essa justaposição é particularmente significativa.

A nova formação se soma ao seu universo intelectual sem suprimir a sua herança religiosa.

25. Daniel possui, assim, uma dupla competência cultural

O personagem pode ser descrito como vivendo na interseção de dois mundos.

Pertence ao povo de Judá.

Conhece as suas tradições e os seus profetas.

Mas é também formado no mundo babilônico e serve aos seus soberanos.

Essa dupla competência explica em parte a sua capacidade de exercer responsabilidades no seio de impérios estrangeiros, conservando uma identidade religiosa distinta.

26. A formação só em parte tem êxito, portanto, como processo de integração

Do ponto de vista administrativo, a formação é um sucesso.

Daniel e seus companheiros tornam-se capazes de servir ao rei.

Do ponto de vista da assimilação religiosa, o resultado é diferente.

Aprendem a cultura babilônica sem abandonar o seu Deus.

Portam nomes babilônicos sem perder a sua identidade.

Servem ao império sem reconhecer-lhe uma autoridade absoluta.

O programa imperial obtém assim a sua competência, mas não a sua adesão religiosa total.

27. Uma preparação indispensável para os capítulos seguintes

A formação de Daniel 1 explica por que Daniel se encontra em seguida no ambiente dos sábios e dos responsáveis da Babilônia.

Prepara Daniel 2, em que o seu conhecimento e o seu dom de interpretação se tornam determinantes.

Prepara igualmente a sua longa carreira administrativa.

Sem Daniel 1, a presença posterior do profeta no coração do poder babilônico apareceria de forma muito mais brusca.

O primeiro capítulo cumpre, portanto, uma função narrativa essencial.

28. O que Daniel 1 permite afirmar

O texto permite estabelecer com segurança vários elementos.

Daniel e seus companheiros são selecionados entre jovens judeus dotados de qualidades particulares.

Recebem uma formação nas letras e na língua dos caldeus.

Essa formação dura três anos, segundo o programa real.

São em seguida examinados pessoalmente por Nabucodonosor.

São reconhecidos como excepcionalmente competentes.

Daniel possui, além disso, uma aptidão particular quanto às visões e aos sonhos.

Esses elementos pertencem explicitamente ao relato.

29. O que Daniel 1 não permite afirmar

O texto não permite reconstituir com precisão:

o programa diário de Daniel;

os textos exatos que ele estudou;

todas as línguas que aprendeu;

o nível do seu domínio de cada sistema de escrita;

as disciplinas eruditas precisas que lhe foram ensinadas;

nem a sua eventual participação em cada tipo de prática associada aos especialistas babilônicos.

Esses elementos podem ser estudados a partir do contexto mesopotâmico, mas não devem ser atribuídos diretamente a Daniel sem indicação textual.

Referências bíblicas citadas

Isaías 39.7 ; Daniel 1.3 ; Daniel 1.3-5 ; Daniel 1.4 ; Daniel 1.4-5 ; Daniel 1.5 ; Daniel 1.7 ; Daniel 1.8 ; Daniel 1.17 ; Daniel 1.18 ; Daniel 1.19 ; Daniel 1.20 ; Daniel 2.1 ; Daniel 2.2 ; Daniel 2.4 ; Daniel 2.10 ; Daniel 2.10-11 ; Daniel 2.19 ; Daniel 2.19-23 ; Daniel 2.27-28 ; Daniel 9.2.

Conclusão do anexo

A formação de Daniel e de seus companheiros constitui uma das dimensões essenciais do programa de integração descrito em Daniel 1.

Os jovens judeus não são apenas transportados para a Babilônia. São preparados para servir no mundo intelectual e administrativo do império.

Aprendem “as letras e a língua dos caldeus” (Daniel 1.4), seguem três anos de formação e são finalmente examinados por Nabucodonosor.

O relato não condena esse aprendizado.

Daniel aceita conhecer a cultura da Babilônia e adquire as competências necessárias para nela exercer responsabilidades.

Mas o texto introduz imediatamente uma distinção fundamental: conhecimento adquirido e revelação divina não são idênticos.

Daniel pode aprender as letras da Babilônia.

Não pode aprender numa escola babilônica o mistério que somente Deus revela em Daniel 2.

Essa distinção permite compreender o lugar da sabedoria no conjunto do livro.

Daniel não opõe fé e inteligência, nem fidelidade e competência.

Mostra, ao contrário, que um homem pode conhecer profundamente a cultura em que vive sem lhe sacrificar a sua identidade religiosa.

A formação babilônica faz de Daniel um homem capaz de servir ao império; não faz dele um adorador dos deuses do império.

É justamente essa distinção entre integração intelectual e assimilação religiosa que permite compreender a posição de Daniel na corte da Babilônia.