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O coxo tinha permissão, segundo a Lei judaica, para estar naquele lugar?

Sim, muito provavelmente. Nada na Lei de Moisés proibia um enfermo de estar nos átrios exteriores do Templo. No entanto, é preciso fazer várias ressalvas…

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O coxo tinha permissão, segundo a Lei judaica, para estar naquele lugar?

Sim, muito provavelmente. Nada na Lei de Moisés proibia um enfermo de estar nos átrios exteriores do Templo. No entanto, é preciso fazer várias ressalvas.

A Lei excluía os deficientes do Templo?

A resposta é não. As pessoas com deficiência física não eram consideradas impuras e podiam participar da vida religiosa de Israel.

A passagem frequentemente invocada é Levítico 21.17-23, mas ela diz respeito apenas aos sacerdotes descendentes de Arão. Um sacerdote cego, coxo ou com outra deficiência não podia oficiar diante do altar, mas conservava seus direitos sacerdotais e podia comer das ofertas sagradas.

Essa restrição não se aplicava ao povo em geral.

Onde estava o coxo?

Lucas esclarece que ele era colocado «à porta do Templo chamada Formosa» (Atos 3.2). Ele não diz que estava dentro do próprio santuário.

A «» é geralmente identificada com a porta de Nicanor, que separava o átrio das mulheres do átrio dos israelitas. Se essa identificação estiver correta, o coxo estava sentado bem perto de uma área muito frequentada pelos fiéis que vinham orar.

Outros especialistas pensam que se tratava de uma porta exterior que dava acesso ao monte do Templo. Em ambos os casos, nada indica que ele estivesse em um lugar que lhe fosse proibido.

Restrições oriundas da tradição judaica?

Certas tradições rabínicas posteriores parecem ter estabelecido limitações a respeito de pessoas com certas impurezas ou enfermidades. No entanto, essas prescrições não provêm diretamente da Lei de Moisés, e é difícil saber em que medida já eram aplicadas no início do século I.

Além disso, a comunidade de era muito mais rigorosa. O Rolo do Templo e outros textos do mar Morto excluíam os cegos, os coxos e diversas pessoas com deficiência de certos espaços sagrados. Contudo, essas regras não representavam a prática oficial do Templo de Jerusalém.

Um indício importante

Depois de sua cura, Lucas esclarece:

«Dando um salto, pôs-se de pé e começou a andar; e entrou com eles no Templo, andando, saltando e louvando a Deus» (Atos 3.8).

O fato de o antigo coxo entrar no Templo com Pedro e João sem provocar nenhuma reação hostil mostra que, verossimilmente, não havia nenhuma proibição legal que o impedisse de ter acesso antes. Sua deficiência não constituía, portanto, um obstáculo jurídico.

Um alcance simbólico

É até possível que Lucas tenha querido ressaltar uma ideia teológica. Durante mais de quarenta anos (Atos 4.22), esse homem permanecera às portas do Templo para mendigar. Agora curado, ele já não está simplesmente sentado à entrada: entra na casa de Deus louvando o seu Criador.

Essa cena lembra a profecia messiânica:

«Então o coxo saltará como o cervo» (Isaías 35.6).

Assim, nada permite pensar que o coxo de Atos 3.1-11 se encontrasse ilegalmente naquele lugar. Pelo contrário, tudo indica que ele era livre para frequentar os átrios acessíveis aos israelitas, ainda que sua deficiência o obrigasse a permanecer diariamente perto daquela porta onde os peregrinos eram numerosos.