Fraates IV e Musa formam um episódio bastante surpreendente da história parta, a meio caminho entre a política dinástica, a diplomacia com e um relato quase romanesco.
-
O essencial
Fraates IV reina sobre o Império Parta de cerca de 38 a 2 a.C.
Musa é descrita pelas fontes antigas como uma escrava ou serva italiana enviada a Fraates por Augusto, provavelmente como presente diplomático.
Ela se torna em seguida a favorita do rei, depois rainha, e acaba fazendo subir ao trono seu filho, Fraates V. Algumas fontes dizem até que ela participou da eliminação de Fraates IV.
-
O contexto político
Naquela época, e os partas eram as duas grandes potências do Oriente Próximo. Disputavam sobretudo a influência sobre a Armênia e as zonas fronteiriças.
Depois de décadas de tensões, Augusto procura estabilizar as relações com os partas. Nesse quadro diplomático, há trocas simbólicas e políticas importantes:
- restituição das insígnias romanas perdidas em Carras,
- negociações entre Augusto e Fraates IV,
- envio de presentes e de reféns de alto escalão.
É nesse contexto que Musa entra para a história.
-
Quem era Musa?
As fontes antigas, sobretudo Flávio Josefo, apresentam-na como uma italiana dada a Fraates IV por Augusto.
A palavra “escrava” é frequentemente usada nos resumos modernos, mas é preciso ter cautela: pode designar uma mulher de condição servil na origem, oferecida à corte parta e depois elevada de posição.
Ela se torna rapidamente muito influente na corte. Dá à luz um filho, Fraates (o futuro Fraates V).
-
Como ela se torna rainha?
O ponto decisivo é a sucessão.
Fraates IV já tinha vários filhos suscetíveis de herdar. Segundo as fontes, Musa persuade Fraates IV a enviar vários de seus filhos a . Oficialmente, isso podia servir de gesto diplomático para com Augusto; na prática, afastava rivais e reforçava a posição de seu próprio filho.
Os filhos enviados a são geralmente nomeados assim:
- Vonones
- Seraspadanes
- Rodaspes
- Fraates
Isso deixa o campo mais livre para Fraates V, filho de Musa.
-
A morte de Fraates IV
Os autores antigos relatam que Musa teria envenenado Fraates IV, ou pelo menos desempenhado um papel em sua morte, para colocar o filho no trono. Isso não pode ser verificado com certeza, mas é de fato a tradição transmitida.
Depois disso, Musa e seu filho Fraates V reinam juntos, fato muito incomum. Algumas moedas parecem mostrar Musa com um estatuto real próprio, o que é notável no mundo parta.
-
Uma rainha excepcional
Musa é uma figura rara porque aparece não só nos textos, mas também na moeda parta, onde sua importância política é visível.
É um dos raros casos, na história arsácida, de uma mulher que exerce um poder tão explícito.
Sua ascensão é excepcional:
- mulher vinda da Itália,
- integrada à corte parta,
- mãe de um herdeiro,
- rainha associada ao poder,
- possível autora de uma derrubada dinástica.
-
O fim
O reinado conjunto de Musa e Fraates V não dura muito tempo. Eles precisam lidar com , especialmente em torno da Armênia. Por fim, o poder deles desmorona por volta de 4 d.C.
As fontes não são abundantes sobre o fim deles, mas eles desaparecem em seguida do centro do poder parta.
-
O que se pode dizer com prudência
Bastante sólido historicamente:
- Fraates IV de fato reinou sobre os partas.
- Musa era uma italiana chegada à corte parta no quadro das relações com Augusto.
- Ela se tornou rainha e mãe de Fraates V.
- Príncipes partas foram enviados a .
- Musa exerceu uma influência política real.
Mais incerto ou dependente de fontes hostis:
- os detalhes íntimos de sua ascensão,
- a ideia de uma sedução calculada,
- o envenenamento de Fraates IV,
- certos retratos muito dramatizados de Musa.
As fontes greco-romanas gostam muitas vezes de apresentar as mulheres influentes da corte como intrigantes ou envenenadoras, por isso é preciso manter uma distância crítica.
-
Por que esta história é importante
Ela mostra várias coisas:
- a porosidade diplomática entre e os partas, apesar de sua rivalidade;
- a importância das sucessões dinásticas na política parta;
- o papel possível das mulheres da corte em um sistema que se imagina muitas vezes inteiramente masculino;
- e o fato de que podia influenciar indiretamente a política parta, não só pela guerra, mas também pelos reféns, pelos presentes e pelas alianças.
O mais fascinante é que Musa é ao mesmo tempo uma personagem histórica real e uma figura cercada de um relato quase lendário.
-
Marcos cronológicos rápidos
- 38 a.C.: início do reinado de Fraates IV
- cerca de 20 a.C.: aproximação diplomática com Augusto; restituição das insígnias
- nesse período: chegada de Musa à corte parta
- fim do reinado de Fraates IV: afastamento dos outros herdeiros para
- por volta de 2 a.C.: morte de Fraates IV
- de 2 a.C. a cerca de 4 d.C.: reinado de Fraates V com Musa