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A Igreja de Jerusalém privilegiava a evangelização em detrimento da edificação dos crentes?

Essa pergunta é muito interessante e, até certo ponto, corresponde à realidade dos primeiros capítulos de Atos. No entanto, é preciso matizar. Uma…

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A Igreja de Jerusalém privilegiava a evangelização em detrimento da edificação dos crentes?

Essa pergunta é muito interessante e, até certo ponto, corresponde à realidade dos primeiros capítulos de Atos. No entanto, é preciso matizar.

Uma pregação voltada para os não convertidos

Nos primeiros tempos, os apóstolos dedicam de fato grande parte de sua atividade ao anúncio público do Evangelho. Pedro prega às multidões em Pentecostes (Atos 2.14-40) e, depois, no Templo, após a (Atos 3.12-26). Os apóstolos ensinam diariamente no Templo e de casa em casa (Atos 5.42). Seu objetivo é então convencer Israel de que Jesus é o Messias prometido.

Essa prioridade é compreensível: a Igreja ainda é pouco numerosa, as testemunhas oculares da ressurreição estão presentes e a ordem de Jesus é que sejam suas testemunhas (Atos 1.8). O cristianismo é, antes de tudo, um movimento missionário.

Mas os crentes não são negligenciados

Lucas ressalta, porém, desde o início:

«E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações» (Atos 2.42).

Essa observação mostra que os novos convertidos recebiam um ensino regular. Lucas praticamente não nos relata o seu conteúdo, pois seu interesse é principalmente histórico e missionário. Ele narra o progresso do Evangelho mais do que descreve a vida interna das congregações.

Um aprofundamento doutrinário provavelmente importante

É difícil imaginar que três mil convertidos (Atos 2.41), e depois vários milhares de outros (Atos 4.4), tenham sido deixados sem instrução. Os Doze dedicavam uma parte importante de seu tempo ao ensino (Atos 6.2-4). Certamente transmitiam as palavras de Jesus, suas , os relatos de sua vida, bem como a interpretação das Escrituras que ele lhes havia dado (Lucas 24.27, Lucas 24.44-45).

É até possível que esse ministério de ensino tenha constituído a base das tradições que mais tarde seriam postas por escrito nos Evangelhos.

A evolução posterior

Quando as Igrejas se tornam mais numerosas e mais distantes dos apóstolos, a necessidade de um ensino mais aprofundado aparece claramente. As epístolas de Paulo, de Pedro, de Tiago ou de João testemunham um esforço constante para fortalecer os crentes, corrigir os erros e desenvolver a doutrina cristã (Efésios 4.11-14; Colossenses 1.28; 2 Pedro 3.18).

Outra explicação

A impressão de que os primeiros capítulos de Atos são essencialmente voltados para os não convertidos provém também do próprio projeto de Lucas. Seu livro não é um manual de catequese, mas o relato da expansão do Evangelho. Ele se interessa sobretudo pelos acontecimentos extraordinários, pelos discursos missionários e pelos progressos da Igreja. Deixa na sombra grande parte da vida cotidiana das comunidades cristãs.

Assim, do ponto de vista histórico, é provavelmente exagerado dizer que os primeiros cristãos privilegiavam a evangelização em detrimento do aprofundamento espiritual. Seria mais correto dizer que Lucas coloca a ênfase principalmente na missão externa, ao passo que apenas entrevê a importante obra de edificação interior realizada pelos apóstolos. Na realidade, as duas dimensões parecem ter coexistido desde as origens da Igreja.