INF384

Como conciliar Lucas 22.19-21 com a hipótese de que Judas não participou da Santa Ceia?

Esse é precisamente o principal argumento apresentado por aqueles que pensam que Judas participou da Santa Ceia. Examinemos atentamente o texto. Em Lucas, lemos…

8 min 8 versículos 3 livros

Como conciliar Lucas 22.19-21 com a hipótese de que Judas não participou da Santa Ceia?

Esse é precisamente o principal argumento apresentado por aqueles que pensam que Judas participou da Santa Ceia. Examinemos atentamente o texto.

Em Lucas, lemos:

“Depois tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou também o cálice, depois da ceia, e deu-lho, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.” (Lucas 22.19-21)

À primeira vista, Lucas parece dizer que Judas está ainda presente depois do cálice, pois Jesus declara: “a mão do que me trai está comigo à mesa”.

Uma leitura cronológica

Se supusermos que Lucas relata os acontecimentos em sua ordem exata, a conclusão parece simples:

  • Jesus institui o pão;
  • depois o cálice;
  • depois anuncia que o traidor ainda está à mesa.

Nessa leitura, Judas realmente participou da Santa Ceia.

Essa é a interpretação tradicional de muitos Pais da Igreja, como Agostinho de Hipona ou João Crisóstomo.

Uma leitura literária

No entanto, muitos exegetas contemporâneos observam que Lucas nem sempre segue uma cronologia estrita. Seu Evangelho apresenta vários agrupamentos temáticos.

Alguns exemplos:

  • a tríplice tentação de Jesus é apresentada em uma ordem diferente da de Mateus (Mateus 4.1-11; Lucas 4.1-13);
  • a rejeição em Nazaré é colocada muito cedo no ministério (Lucas 4.16-30), provavelmente para introduzir o tema da rejeição do Messias;
  • certas palavras de Jesus são agrupadas sem preocupação aparente com a sua ordem cronológica.

Assim, vários comentaristas entendem que Lucas teria deslocado o anúncio do traidor para depois da instituição da Ceia, a fim de aproximar dois temas:

  • o dom da salvação;
  • o contraste com a traição.

Em outras palavras, Lucas seguiria aqui uma ordem teológica, e não cronológica.

O testemunho de João

É aqui que o relato de João se torna importante.

João é o único evangelista a descrever com precisão a saída de Judas:

  • Jesus entrega o pedaço de pão;
  • Satanás entra em Judas;
  • Jesus lhe diz: “O que fazes, faze-o depressa” (João 13.27);
  • “Judas, tendo tomado o pedaço, saiu logo” (João 13.30);
  • só então começam os discursos dirigidos aos Onze (João 13.31-17.26).

João dá a impressão de que Judas realmente deixa a sala antes de toda a parte final da refeição.

Que texto deve servir de referência?

Na realidade, não se deve opor Lucas e João.

Duas possibilidades continuam legítimas:

  1. Lucas segue a ordem cronológica: Judas participa da Santa Ceia.
  2. João dá a cronologia precisa, enquanto Lucas agrupa os acontecimentos segundo seu alcance teológico: Judas já tinha saído quando Jesus institui a Santa Ceia.

Em nossa opinião, a segunda solução harmoniza mais facilmente o conjunto dos relatos. João manifesta um interesse particular pela sucessão dos acontecimentos naquela noite e assinala explicitamente a saída de Judas antes do início dos discursos de despedida. Lucas, por sua vez, parece privilegiar uma construção literária em que o anúncio da traição faz ressaltar imediatamente o contraste entre o dom da nova aliança e a infidelidade do traidor.

Uma observação exegética importante

O texto de (Lucas 22.21) não diz que Judas acabou de receber o pão e o cálice. Jesus afirma apenas:

“A mão do que me trai está comigo à mesa.”

Essa expressão pode ser entendida como uma designação geral do traidor presente durante a refeição. Ela não especifica necessariamente que Judas ainda esteja sentado à mesa no momento exato em que Lucas relata essas palavras. É precisamente essa ambiguidade que explica por que a questão permanece em aberto na exegese e por que nenhuma das duas posições pode ser demonstrada de maneira definitiva apenas a partir do texto bíblico.